A privatização da Amazonas Energia não foi suficiente para solucionar os problemas financeiros e operacionais que historicamente atingiam a distribuidora. Documentos oficiais mostram que, depois de passar ao controle privado em 2019, a concessionária continuou acumulando dificuldades e chegou a R$ 9,6 bilhões em dívida líquida em setembro de 2023, em um cenário classificado nos documentos como de insustentabilidade econômico-financeira.

A situação alcançou um ponto crítico em novembro de 2023, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu não aprovar um pedido de transferência do controle societário da Amazonas Energia e recomendou ao Ministério de Minas e Energia a caducidade da concessão — procedimento que poderia levar à perda do direito de explorar o serviço de distribuição de energia no Estado.

O voto da então diretora da Aneel Agnes Maria de Aragão da Costa, datado de 21 de novembro de 2023, também determinava que as áreas de fiscalização técnica e econômico-financeira da agência mantivessem o acompanhamento da prestação do serviço no Amazonas até uma decisão definitiva do poder concedente.

Plano de faturamento foi reprovado

Os problemas não se limitavam ao endividamento. Documentação da Aneel sobre os Planos de Resultados mostra que a Amazonas Energia esteve entre quatro distribuidoras submetidas a acompanhamento específico da agência.

No caso da concessionária amazonense, o foco era o faturamento. O plano vigorou entre outubro de 2021 e setembro de 2022 e foi acompanhado trimestralmente pela fiscalização da Aneel.

Ao final, o resultado foi “reprovado”, conforme consta no quadro de avaliação da própria agência.

Reclamações consideradas procedentes

A insatisfação dos consumidores também aparece nos documentos da própria Amazonas Energia.

No relatório de administração e demonstrações financeiras referente a 2023, a concessionária informou 3.949 reclamações de segundo nível. Desse total, 1.684, ou 43%, foram encerradas como procedentes.

O quadro se torna ainda mais significativo quando consideradas as demandas encaminhadas à Aneel. Foram registradas 1.041 reclamações de terceiro nível, das quais 634, equivalentes a 61%, foram consideradas procedentes.

Segundo o documento, a principal origem dessas reclamações de terceiro nível era a qualidade do fornecimento, responsável por 61%, seguida de faturamento, com 18,54%, e cobranças, com 16,71%.

Interrupções atingiram consumidores

Indicadores de continuidade do fornecimento também evidenciaram dificuldades durante o período. No conjunto Alto Solimões, o DEC — indicador que mede por quanto tempo, em média, o consumidor fica sem energia — chegou a 41,22 horas em 2021, subiu para 49,93 horas em 2022 e ficou em 37,51 horas em 2023.

Em Cidade Nova, Manaus, foram registradas 19,02 horas em 2021, 19,21 horas em 2022 e 17,02 horas em 2023.

Em janeiro de 2025, um apagão afetou mais de 300 mil consumidores no Amazonas. O episódio levou a Defensoria Pública do Estado a ingressar com ação contra a Amazonas Energia, questionando a prestação do serviço e os mecanismos adotados para reduzir os impactos da interrupção.

Problema atravessou a privatização

A crise econômico-financeira da Amazonas Energia não começou com a privatização. A distribuidora já enfrentava dificuldades antes de ser transferida à iniciativa privada. Os documentos, porém, mostram que os problemas permaneceram durante os anos seguintes à privatização, período em que a empresa ficou sob controle do consórcio Oliveira Energia-Atem, liderado por Orsine Rufino de Oliveira.

Além da dívida bilionária, houve reprovação do plano de faturamento pela Aneel, elevado volume de reclamações consideradas procedentes e, em 2023, a recomendação de caducidade da concessão.

Em abril de 2026, a Âmbar assumiu o controle da concessionária, iniciando uma nova etapa da distribuição de energia no Amazonas.

A nova controladora apresentou um plano que prevê R$ 5,5 bilhões em investimentos até 2031, dos quais R$ 3,9 bilhões seriam recursos próprios. Entre as medidas anunciadas estão manutenção e modernização da rede, substituição de cabos, recuperação e construção de subestações e adoção de novas tecnologias de monitoramento.

Mesmo após a mudança de controle, novos apagões provocaram procedimentos de órgãos como a Defensoria Pública e o Ministério Público, mantendo a qualidade e a segurança do fornecimento de energia entre os principais desafios da concessionária no Amazonas.

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