Há dias em que o mundo pesa mais do que deveria. As notícias chegam duras, a cidade corre apressada, a vida cobra respostas que nem sempre tenho. É nesses dias, sobretudo neles, que a arte se aproxima de mim como quem não faz perguntas, apenas oferece abrigo, cuidado e um breve sopro de felicidade, capaz de tornar o peso do mundo mais suportável.
A arte me faz bem porque não exige pressa. Um livro aberto desacelera o tempo. Um verso lido em silêncio reorganiza o caos. Uma canção antiga, dessas que moram na memória, devolve sentidos que às vezes julguei perdidos. A arte não resolve tudo, mas ajuda a suportar quase tudo.
Infelizmente, aprendi tarde que a arte não é luxo, é necessidade. No cotidiano duro da escola pública, na periferia que insiste em resistir, é a arte que humaniza o espaço, que abre janelas onde antes só havia muros. Um aluno que escreve, que desenha, que declama, descobre que também pode existir para além das estatísticas.
A arte me faz bem porque me ensina a olhar sem preconceito. Olhar a realidade com mais cuidado, a cidade com mais afeto, a mim mesmo com menos severidade. Ela amplia o mundo e, ao mesmo tempo, me devolve a ele. Há uma ética silenciosa na arte: a de lembrar que ninguém atravessa a vida sozinho.
A dança me faz bem porque me ensina a escutar o corpo sem rigidez e medo. Escutar o outro no ritmo partilhado, o espaço com mais presença, a mim mesmo com mais leveza. Ela reconcilia gesto e silêncio e, ao mesmo tempo, cura a minha alma. Há uma máxima de respeito na dança: a de lembrar que todo movimento nasce do encontro e que ninguém sustenta o próprio passo sozinho.
O cinema me faz bem porque me ensina a enxergar histórias para além da superfície e das certezas fáceis. Enxergar o outro em suas contradições, a cidade em seus enquadramentos invisíveis, a mim mesmo com mais compreensão. Ele dilata o tempo e, ao mesmo tempo, me devolve ao presente.
A literatura me faz bem porque me ensina a escutar o mundo para além do que é dito. Escutar o outro em suas entrelinhas, a cidade em suas memórias, a mim mesmo com mais delicadeza. Ela amplia o tempo e, ao mesmo tempo, me devolve ao essencial. Há na literatura uma regra de ouro: a certeza de que cada palavra nasce do encontro e de que ninguém caminha sozinho dentro de uma narrativa.
Quando escrevo, sinto que organizo os escombros do dia. Quando leio, reconheço minhas dores nas palavras alheias. Quando encontro a arte, encontro também uma forma de esperança, não a esperança ingênua, mas aquela que insiste, mesmo sabendo das dificuldades.
Em tempos de brutalidade, a arte é um gesto de resistência. Em tempos de descrença, é um ato de fé no humano. Por isso digo, sem romantismo excessivo, mas com convicção: a arte me faz bem porque me mantém vivo, atento e sensível num mundo que, muitas vezes, tenta nos endurecer. E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão necessária.
Por fim, “A arte existe porque a vida não basta”, como disse Ferreira Gullar. E é por isso que eu desejo a você, à sua família e aos seus amigos muita Arte em 2026. Viva a literatura. Viva a educação. Viva a ciência. E viva nós, artistas que somos, do cotidiano, do supermercado, etc., amantes da vida, em Manaus, no Brasil e no mundo.
Luís Lemos é professor, filósofo, escritor, autor, entre outras obras de, “O primeiro olhar” (2011), “O homem religioso” (2016), “Jesus e Ajuricaba na terra das amazonas” (2019), “Filhos da quarentena” (2021), “Amores que transformam” (2024) e “Noite Santa” (2025).
Instagram: @luislemosescrito





