
A morte do funcionário da Caixa Econômica Federal, Lucas Gomes da Silva, 28, ocorrida na noite do último domingo (4), em Barreirinha, no Baixo Amazonas, transformou-se em um caso cercado de controvérsias, suspeitas e denúncias graves. O acidente aconteceu por volta das 22h30, em um cruzamento da cidade, quando a motocicleta conduzida por Lucas colidiu com uma Saveiro Cross branca (placa PHI-9959).
O que intensificou o clima de indignação foi a informação de que, no veículo envolvido, estavam Mariah Seixas Taveira, filha do prefeito Darlan Taveira, e Vitória Paiva Lemos, cunhada do chefe do Executivo municipal. Desde então, a família da vítima afirma enfrentar uma sucessão de atos que teriam comprometido a transparência das apurações.
Cena do acidente teria sido alterada
Um dos pontos mais sensíveis, segundo relatos, é a retirada da picape do local por uma retroescavadeira ligada à Prefeitura de Barreirinha, antes da chegada da polícia e sem autorização formal. A ação, além de alterar completamente a cena, teria inviabilizado uma perícia técnica adequada.
Família soube da morte por terceiros
Outro aspecto que causou revolta foi a ausência de comunicação oficial à família. Ao tentar contato com Lucas pelo celular, um sargento da Polícia Militar atendeu e informou o óbito. A irmã, Luana Gomes da Silva, questionou a identificação e avisou que a família iria a Barreirinha para o reconhecimento do corpo.
Entretanto, o que se seguiu agravou ainda mais o cenário: o corpo de Lucas foi liberado do hospital e encaminhado de lancha para Parintins, na madrugada de segunda-feira (5), sem autorização ou ciência da família.
“Em nenhum momento houve reconhecimento formal do corpo, tampouco autorização para remoção. O corpo foi retirado de Barreirinha sem liberação oficial e sem qualquer documentação legal”, denunciou Patrícia Gomes, irmã da vítima.
Corpo transferido sem perícia e sem documentos
Ao chegar a Parintins, a família foi informada de que a perícia ainda não havia sido realizada. Mesmo assim, o corpo foi entregue diretamente a uma funerária, sem Declaração de Óbito, sem identificação oficial e sem autorização legal, sendo reconhecido apenas pela própria irmã no local. A Declaração de Óbito só foi entregue na terça-feira (6), às 11h, quando o corpo já estava preparado para o sepultamento.
Resistência, silêncio e boletim unilateral
Na quarta-feira (7), Patrícia e a irmã Luciana foram a Barreirinha em busca de esclarecimentos. No local do acidente, constataram a existência de câmeras de segurança em duas residências. Uma das proprietárias informou que as imagens já haviam sido entregues à polícia, mas o acesso foi negado à família.
Na delegacia, as irmãs enfrentaram resistência para registrar um novo boletim de ocorrência. O primeiro BO, segundo elas, foi lavrado de forma unilateral, atribuindo a culpa exclusivamente a Lucas, sem mencionar os nomes das demais pessoas que estavam no veículo envolvido.
Mais grave ainda: o registro descreve a natureza do fato como “acidente de trânsito com vítima fatal provocado pela própria vítima”, apesar de não haver conclusão pericial e de a própria autoridade policial confirmar que o caso segue sob investigação.
Medo de testemunhas e presença da primeira-dama
Moradores relataram que um trator da prefeitura foi utilizado para remover o veículo antes da chegada da polícia. As irmãs também afirmam ter percebido medo entre testemunhas, que evitam prestar depoimento.
A situação ganhou novos contornos com a informação de que a primeira-dama Bárbara Lemos esteve no local do acidente. Um vídeo mostra ela entrando na Saveiro Cross poucos minutos antes de o veículo ser retirado por uma retroescavadeira.
No boletim inicial, Mariah Seixas Taveira aparece apenas como testemunha, e não como envolvida no acidente, apesar de estar dentro do veículo no momento da colisão — fato que a família considera inexplicável.
Clamor por justiça
“Trata-se de um conjunto de fatos gravíssimos que comprometem a lisura da investigação e levantam sérias dúvidas sobre a condução do caso”, afirmou Patrícia, que cobra justiça pela morte do irmão.
Procurada, a assessoria a Prefeitura de Barreirinha disse em nota que adotou todas as providências administrativas cabíveis, pautadas por uma atuação responsável e humanizada.
No momento, o caso encontra-se sob apuração das autoridades policiais competentes, que conduzem as investigações para o devido esclarecimento dos fatos.
Enquanto isso, a família de Lucas Gomes da Silva segue clamando por respostas, transparência e responsabilização, em um caso que ultrapassou o luto e se transformou em um símbolo de indignação e suspeita no interior do Amazonas.







