Foto: Samuel Estevão/Fato Amazônico

Sem a presença do governador Roberto Cidade (União Progressista), quatro dos cinco candidatos ao Governo do Amazonas participaram, na noite deste domingo (9), do primeiro debate pela Band Amazonas. David Almeida (Avante), Isael Munduruku (Rede/PSOL), Maria do Carmo (PL) e Omar Aziz (PSD) estiveram frente a frente em um encontro marcado mais por críticas, acusações e cobranças sobre administrações passadas do que pelo detalhamento de novas propostas.

Ao longo dos blocos, saúde, educação, segurança pública e violência contra a mulher estiveram entre os assuntos discutidos. Os candidatos também recorreram repetidamente às próprias trajetórias e críticas à chamada “velha política” ou às administrações anteriores para defender suas candidaturas.

Mas foi o confronto entre David Almeida e Maria do Carmo que produziu alguns dos momentos de maior tensão da noite. Os dois trocaram acusações sobre experiência administrativa, promessas não cumpridas, educação e capacidade de gestão.

“O que o senhor criou na sua vida?”

O embate esquentou quando David escolheu Maria do Carmo para responder a uma pergunta e iniciou sua intervenção criticando candidatos que, segundo ele, surgem com “soluções mirabolantes” sem terem ocupado cargos públicos.

“Como candidata ao Governo do Amazonas, a senhora, que não cumpre nenhuma das suas promessas, como vai convencer o eleitor amazonense de que a senhora é a solução para os problemas do estado?”, questionou David.

Maria respondeu imediatamente:

“O que o senhor criou na sua vida?”

A candidata do PL apresentou sua trajetória empresarial e no setor educacional como credencial administrativa e questionou o que David teria realizado fora da estrutura do poder público.

“Eu quero que me mostre, inclusive o senhor, o que o senhor criou na sua vida que o credencia a dizer que eu não tenho experiência”, afirmou.

Maria disse ter criado “uma instituição do zero”, atualmente com 53 mil alunos e presença em dezenas de municípios amazonenses.

“Aqui quem não está fazendo o dever de casa são vocês, que há anos prometem, prometem e não realizam nada”, atacou.

David leva Tropical Hotel para o debate

Na réplica, David Almeida concentrou fogo em dois projetos associados a Maria do Carmo.

“Na teoria, tudo que você ouviu. Na prática, comprou o Tropical Hotel, prometeu entregar em 2022. Estamos em 2026, não entregou um quarto”, disparou.

O candidato também cobrou a adversária pela Santa Casa de Misericórdia, afirmando que havia sido anunciado um projeto para transformar o imóvel em hospital universitário que não teria sido concretizado.

David aproveitou para contrapor a experiência empresarial apresentada por Maria com sua própria passagem pela administração pública.

“Uma coisa é muito fácil falar, a outra é fazer, entregar como nós entregamos”, afirmou.

Maria admite atraso e devolve cobrança

Maria do Carmo reconheceu que gostaria de já ter concluído o projeto do Tropical Hotel, mas atribuiu o atraso à falta de financiamento e apoio do poder público.

“Eu adoraria ter entregue o Tropical Hotel, mas não encontrei financiamento público, apoio do governo. Aliás, de ninguém”, respondeu.

Ela afirmou que pretende concluir o empreendimento com recursos próprios e acusou a Prefeitura de Manaus de ter elevado o IPTU do imóvel “em quase mil por cento”.

Em seguida, devolveu a cobrança para David.

“Eu não sou governo, não tenho orçamento. Mas eu quero que me expliquem o que fazem com o orçamento. Porque o orçamento da prefeitura, onde o senhor foi prefeito, é robusto. O do nosso estado nem se fala e, ainda assim, a gente não vê resultado nenhum”, afirmou.

Educação coloca David e Maria novamente frente a frente

A educação provocou outro confronto entre os dois candidatos.

Maria defendeu medidas que considera básicas para melhorar o desempenho dos estudantes, como valorização e qualificação dos professores e maior permanência dos alunos em sala de aula.

David respondeu usando sua passagem pela Prefeitura de Manaus como vitrine e citou ampliação de vagas em creches, escolas de tempo integral e indicadores da rede municipal.

“De educação eu posso falar do que eu fiz, do que entreguei e do que eu vou fazer”, declarou.

O candidato voltou ainda a mencionar avaliação de curso ligado à instituição de ensino de Maria do Carmo.

Maria contestou os números apresentados pelo adversário sobre a educação municipal.

“A creche parece que não corresponde à realidade”, afirmou.

Ela também declarou que indicadores podem ser manipulados e voltou a usar sua trajetória profissional como argumento: “Eu dei minha vida inteira à educação”.

Isael faz grave acusação ao falar de segurança

Isael Munduruku adotou discurso crítico contra administrações anteriores e reservou parte de suas intervenções para a segurança pública.

Ao tratar do tráfico de drogas nas fronteiras do Amazonas, o candidato fez uma grave acusação ao afirmar que haveria interferência para favorecer criminosos e chegou a alegar que telefonemas seriam suficientes para conseguir a liberação de drogas apreendidas e de traficantes.

Isael, porém, não apresentou durante a declaração provas que sustentassem a acusação.

O candidato relacionou os problemas enfrentados pelo Amazonas ao que classificou como “velha política”, mas não detalhou, naquele momento, como ocorreria a implementação de medidas capazes de solucionar os problemas denunciados.

David promete repetir no Estado modelo de Manaus

David Almeida também utilizou sua passagem pela Prefeitura de Manaus como principal credencial durante diferentes momentos do debate.

Após ouvir críticas sobre saúde e educação, defendeu os resultados da administração municipal e atribuiu problemas enfrentados pelo Estado às administrações anteriores.

A mensagem utilizada pelo candidato foi a de que, caso eleito governador, pretende levar para o Amazonas políticas e experiências adotadas durante sua passagem pelo Executivo municipal.

“Se eleito governador vou fazer pelo estado o que fiz por Manaus”, afirmou.

Maria promete “choque de gestão”

Maria do Carmo voltou a apresentar como uma das bandeiras de sua candidatura a implantação de um “choque de gestão” no Governo do Amazonas.

A candidata defendeu mudanças administrativas e criticou a atuação dos grupos políticos que já passaram pelo comando do Estado. No debate, entretanto, parte das medidas necessárias para colocar esse modelo em prática não foi detalhada tecnicamente.

A estratégia de Maria foi apresentar sua experiência na iniciativa privada e no setor educacional como contraponto aos adversários que construíram suas trajetórias dentro da administração pública.

Omar promete concurso para 5 mil policiais

Omar Aziz também concentrou críticas nas deficiências da saúde, educação e segurança pública e atribuiu parte dos problemas às administrações anteriores.

O candidato defendeu melhores condições de trabalho e remuneração para os servidores e apresentou uma das propostas numéricas mencionadas durante o debate na área da segurança: a realização de concurso público para ampliar o efetivo em 5 mil policiais.

Em outro momento, ao discutir violência contra a mulher e feminicídio com Maria do Carmo, Omar defendeu o fortalecimento da Patrulha Maria da Penha, ampliação do atendimento especializado e políticas destinadas a proporcionar independência financeira às mulheres em situação de violência.

Maria cobrou maior efetividade da rede de proteção e defendeu ampliação de casas-abrigo e ações de conscientização e prevenção dentro das escolas.

Roberto Cidade fica fora

A ausência de Roberto Cidade também marcou o primeiro debate. Horas antes do programa, a coordenação da campanha informou que, por orientação jurídica, o governador não participará de debates ou sabatinas realizados antes do início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto.

Além da justificativa jurídica, a campanha alegou existir uma estratégia coordenada dos adversários para transformar os debates em um “palanque de ataques” contra Cidade, algo que classificou como “jogo combinado”.

A coordenação afirmou que a ausência não representa uma tentativa de fugir do confronto de ideias e informou que, a partir de 16 de agosto, Cidade estará disponível para debater sua administração e apresentar suas propostas para os próximos quatro anos.

Com quatro candidatos no estúdio e Cidade ausente, o primeiro debate da Band terminou marcado por cobranças sobre administrações anteriores, promessas, ataques e defesa de trajetórias pessoais. No confronto mais direto da noite, David Almeida tentou colocar em xeque as entregas e a experiência administrativa de Maria do Carmo, enquanto a candidata do PL respondeu questionando os resultados obtidos pelo ex-prefeito e apresentando sua experiência empresarial como alternativa para comandar o Amazonas.

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