
No instante em que desceu a onda gigante de Nazaré durante a etapa da WSL em dezembro, a surfista brasileira Michelle des Bouillons sabia que a possibilidade de conseguir uma nota alta era grande.
Contudo, ao chegar na areia, percebeu que o feito poderia não ficar restrito somente à competição que disputava naquele dia.
“Michelle, é onda para recorde”, ouviu a atleta do colega Rodrigo Koxa, que já foi o dono do recorde mundial de ondas gigantes entre os homens.
Estima-se que a onda surfada pela brasileira tenha alcançado 24,99 metros. Com isso, superaria o atual recorde feminino, que pertence à também brasileira Maya Gabeira, que surfou 22,4 metros em 2020, em Nazaré.
Agora, o desafio de Michelle e sua equipe é conseguir homologar a marca. Um processo que exige estudos técnicos e a validação final do Guinness World Records em conjunto com Bill Sharp, criador do Big Wave Challenge Award, o principal prêmio do surfe de ondas gigantes.
Apesar da expectativa gerada, Michelle des Bouillons tem procurado encarar o processo de homologação do recorde com naturalidade. Foi essa mesma postura, inclusive, que ela adotou na hora de surfar a onda em dezembro.
“Eu não entrei nesse dia no campeonato pensando em bater um recorde mundial. Nunca busquei trazer esse peso para mim dentro das ondas que eu já surfei. Quando eu surfei aquela onda, eu sabia que ela era gigantesca, mas não passou pela cabeça: ‘Ah, possivelmente é um recorde’. Até porque tudo passa muito rápido”, diz a carioca em entrevista à CNN Brasil.
Aproveitar o momento
Antes mesmo de entrarem na água para competir na etapa da WSL no fim do ano, as surfistas sabiam que as condições do mar de Nazaré eram ideais para uma boa performance.
Michelle, porém, surfou na primeira bateria, o que não é considerado vantajoso para os atletas. Isso porque sua onda acaba servindo de referência — para os outros surfistas e os juízes — no restante da competição.
De qualquer forma, a brasileira sabia que tinha de aproveitar o que o mar oferecia na ocasião.
“Eu já entrei na bateria com a estratégia de pegar a maior onda que viesse para nós. E foi exatamente o que acontece. Quando essa onda surgiu lá fora, já estava muito próxima. Então já era um paredão de água imenso na nossa frente. Nos questionamos se daria tempo de entrar na onda, porque as ondas fazem uma dança, né? Mas percebemos que sim, daria tempo. E então o Ian começou a fazer a curva com o jet-ski”, conta.
Ian Cosenza é companheiro de vida e de surfe. Também big rider (como são chamados os surfistas de ondas gigantes), é ele o responsável por pilotar o veículo que guia Michelle na água.
A parceria, afinada após uma década em Nazaré, foi decisiva para que os dois conseguissem aproveitar a melhor onda possível, que poderá virar recorde mundial.
“Antes da bateria, ele me olhou e falou: ‘Michelle, só confia. O que eu fizer, confia e vai’. Então, no momento em que a onda veio, a gente não precisou falar nada um para o outro. Foi através do olhar e da movimentação que ele fez com o jet-ski. Ali eu já entendi o que eu tinha que fazer, sabe?”, afirma a surfista.
“O Ian é um dos Top 3 melhores pilotos do mundo. A sintonia que ele tem com o oceano é impressionante. Eu estou sempre nas melhores ondas. Então ali a gente nem se falou naquele momento em que a onda veio, só agimos pelo entrosamento que construímos um com o outro.”
Homologação do recorde
Michelel des Bouillons pode ter surfado uma onda de quase 25 metros, mas o trabalho para comprovar a marca é tão ou mais cansativo do que a preparação para encarar ondas gigantes.
A surfista brasileira já entregou ao Guinness World Records e a Bill Sharp, os responsáveis pela homologação, um dossiê completo com provas técnicas da onda. O documento contou com a supervisão de Paulo Vinicius Lopes, especialista no tema e responsável pela medição da onda que deu a Rodrigo Koxa o recorde mundial em 2017.
O método consiste em apresentar uma análise de vídeo frontal, quadro a quadro, para estabelecer o instante de maior representação vertical da onda. Também é utilizada, como unidade de medida, a canela da surfista, que serve como uma régua proporcional na imagem.
Ainda que a confirmação do recorde dependa de terceiros, Michelle está confiante no sucesso da empreitada burocrática.
Maya Gabeira e o atual recorde
Maya Gabeira se tornou uma das principais referências no surfe de ondas gigantes. Ela foi responsável, inclusive, por dois recordes mundiais, o último deles em 2020. No início do ano passado, a atleta anunciou sua aposentadoria e não compete mais na modalidade.
Michelle des Bouillons admite não ter uma relação próxima com a colega, mas reconhece a importância de Maya para as ondas gigantes e o surfe brasileiro.
“Seria uma honra enorme poder receber esse prêmio das mãos dela. Se ela não tivesse batalhado por isso durante a carreira dela, eu talvez não estaria pensando hoje em batalhar por isso. Então só tenho a agradecer por tudo o que a Maya fez e espero que ela fique feliz também [caso meu recorde seja validado]”, declara.
“Seria incrível se a cada ano, ou a cada dois anos, uma mulher pudesse bater essa marca. Isso é o que traz a evolução para o esporte. Se a gente parar para pensar, foi há seis anos que aconteceu pela última vez. Então está mais na hora da gente reviver isso novamente”, completa Michelle, que agora terá de esperar pacientemente pelo que pode ser o maior feito de sua carreira.
Com informações da CNN.







