CRÉDITO: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

O Carter Center informou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que não poderá enviar uma missão de observação para acompanhar as eleições de outubro no Brasil, o que deixa o pleito sem a presença da única organização dos Estados Unidos que havia sido convidada para monitorar a disputa, informa a Folha de São Paulo.

Fundado em 1982 pelo ex-presidente americano Jimmy Carter e sua esposa, Rosalynn, o Carter Center possui sólida reputação na área de integridade e observação eleitoral, tendo organizado mais de 100 missões em 40 países ao longo de sua trajetória. No Brasil, a instituição atuou como observadora na eleição de 2022, quando o presidente Lula (PT) derrotou Jair Bolsonaro (PL). Naquele pleito, a comitiva foi composta por quatro especialistas, atuou por dois meses e desempenhou um papel central na estratégia do TSE de utilizar relatórios internacionais para rebater os ataques e discursos bolsonaristas contra as urnas eletrônicas.

Crise de financiamento provocada por cortes de Trump

Em 2026, a entidade buscava há meses captar os recursos necessários para retornar ao país. No entanto, esbarrou em uma crise generalizada de financiamento que atinge agências internacionais de cooperação e desenvolvimento, gerada pelas políticas promovidas pelo governo de Donald Trump.

O Carter Center depende historicamente de doações vindas de governos, indivíduos, corporações, fundações e agências multilaterais. Tradicionalmente, os Estados Unidos figuram entre os principais financiadores da instituição, seja por repasses da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) ou diretamente do Departamento de Estado. Outros contribuintes frequentes incluem países europeus como Reino Unido, Alemanha, Irlanda e Bélgica, além da própria União Europeia.

Em um pronunciamento feito em maio de 2025, a CEO do Carter Center, Paige Alexander, revelou que quase 10% do financiamento da entidade “evaporou subitamente” devido aos severos cortes promovidos pela administração Trump na verba de ajuda internacional. Em entrevista posterior ao jornal Atlanta Journal-Constitution, a executiva indicou que as perdas financeiras acumuladas pela instituição foram estimadas em cerca de US$ 11 milhões (aproximadamente R$ 56,4 milhões).

Com o orçamento reduzido, o centro enfrentou enormes dificuldades para atrair doadores capazes de bancar a logística de uma equipe no Brasil, mesmo em moldes reduzidos como na experiência de 2022. Algumas fundações parcerias justificaram a recusa alegando necessidade de priorizar ações humanitárias e de emergência provocadas pelo cenário global resultante da decisão do governo Trump de fechar a Usaid.

Outro obstáculo decisivo foi a decisão da União Europeia de organizar uma missão própria, que participará pela primeira vez da observação de um pleito no Brasil. Como parte expressiva dos recursos do Carter Center advém de governos europeus, diversos países preferiram direcionar suas verbas à comitiva oficial da UE. Por regras estritas de isenção, o Carter Center é impedido de aceitar financiamento do governo ou de qualquer instituição do próprio país observado.

Blindagem contra interferências e cenário dos observadores

O TSE já havia optado por não convidar este ano a Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais (Ifes) — outra entidade americana presente em 2022 —, por saber que seu orçamento é profundamente dependente da Usaid e que a instituição não contaria com as verbas necessárias.

Sem as organizações norte-americanas, o acompanhamento internacional das eleições brasileiras ficará sob a liderança principal da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a União Interamericana de Organismos Eleitorais (Uniore) também devem enviar comitivas. Outras instituições convidadas pela corte eleitoral, como a União Africana, a Liga Árabe e o Parlamento do Mercosul (Parlasul), ainda não confirmaram presença.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, tem reforçado a interlocutores a importância do monitoramento internacional como elemento de blindagem do processo eleitoral contra eventuais questionamentos à transparência e aos resultados.

No governo Lula, o diagnóstico é de que há forte probabilidade de uma ofensiva externa articulada para colocar em dúvida a credibilidade das urnas brasileiras. A preocupação aumentou após revelações feitas pelo jornal The Washington Post, detalhando que o governo Trump pretendia enviar auxiliares ao Brasil para levantar suspeitas sobre a lisura do processo de votação, com reuniões programadas inclusive com o próprio TSE. O Itamaraty, contudo, negou os vistos de entrada para a comitiva americana.

O relatório de 2022 e as recomendações do Carter Center

Na eleição de 2022, o Carter Center produziu um relatório extenso sobre os trabalhos desenvolvidos no país. A comitiva precisou atuar em formato reduzido por restrições orçamentárias e curto tempo hábil, o que inviabilizou conclusões estatísticas mais abrangentes sobre a tecnologia e a totalização da votação.

Ainda assim, o documento avaliou aspectos cruciais da disputa, como o ambiente de elevada polarização política, as etapas de auditoria do sistema e os impactos da desinformação direcionada contra as urnas eletrônicas. O relatório apontou haver amplo consenso e confiança no sistema eletrônico de votação entre os principais atores institucionais consultados.

O centro também teceu ponderações críticas à atuação do TSE no combate às fake news, destacando a ausência de “uma estrutura jurídica e regulatória adequada para equilibrar a liberdade de expressão e a intervenção do Estado em relação à disseminação de conteúdos falsos e discursos de ódio”. O parecer defendeu que “qualquer decisão sobre a remoção de conteúdo não deve responsabilizar os intermediários por conteúdos de terceiros relacionados aos seus serviços, salvo quando eles intervirem especificamente nesse conteúdo ou deixarem de cumprir uma ordem dentro do prazo estabelecido”.

Entre as recomendações deixadas ao país, o Carter Center sugeriu facilitar o acesso físico dos eleitores às seções de votação e criar fundos específicos de incentivo para maior engajamento das universidades nos processos públicos de auditoria das urnas eletrônicas.

Com informações do Brasil 247.

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