
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta segunda-feira (14) novas propostas de regulamentação para a inteligência artificial e afirmou que o país já possui mecanismos suficientes para responsabilizar empresas do setor. Em publicação na rede Truth Social, o republicano defendeu que a principal proteção necessária para a tecnologia seria a atuação de um presidente “forte e inteligente”, fazendo referência ao próprio governo.
Trump também declarou que as autoridades norte-americanas já contam com poderes regulatórios e criminais para agir contra empresas de tecnologia. O presidente classificou as críticas aos riscos relacionados à inteligência artificial como uma “conspiração doentia” e afirmou que a China seria a principal beneficiada caso os Estados Unidos reduzissem o ritmo de desenvolvimento da tecnologia.
As declarações ocorrem em meio ao aumento do debate sobre os riscos associados aos sistemas mais avançados de inteligência artificial. Executivos e pesquisadores do setor passaram a defender medidas que permitam avaliar melhor os possíveis impactos dessas tecnologias antes que novos modelos sejam colocados em operação.
A discussão ganhou força após Jacob Coxon, ex-pesquisador da Anthropic, afirmar que pessoas envolvidas no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial consideram possível que a tecnologia provoque danos extremos à humanidade até o fim desta década. As declarações também repercutiram entre investidores, que passaram a avaliar com maior atenção os riscos regulatórios, ambientais e relacionados à segurança provocados pela expansão dos sistemas de IA.
O presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, defendeu no sábado a criação de regras federais que obriguem empresas a submeter os chamados modelos de fronteira a auditorias independentes. Esses sistemas estão entre os mais avançados disponíveis atualmente e conseguem executar tarefas complexas, utilizar ferramentas, produzir códigos e operar com níveis elevados de autonomia.
Amodei também propôs uma maior cooperação entre as empresas do setor para reduzir temporariamente o ritmo de desenvolvimento dos sistemas mais avançados enquanto os mecanismos de segurança não acompanham a velocidade de evolução da tecnologia. A ideia recebeu apoio de executivos como Elon Musk, da xAI, e Sam Altman, da OpenAI.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, adotou uma posição semelhante à de Trump e questionou o movimento de grandes empresas de tecnologia em favor de novas regras. Ele afirmou considerar incomum que companhias do próprio setor estejam recorrendo ao governo para pedir regulamentação e declarou ser cético em relação à criação de novas exigências federais.
O presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Mike Johnson, afirmou que espera uma reunião entre Trump e representantes das principais empresas de inteligência artificial ainda nesta semana ou no início da próxima. A expectativa é que o encontro discuta a responsabilidade das companhias pela segurança de seus produtos e os limites da atuação do governo na fiscalização do setor.
Enquanto o governo rejeita novas exigências, três senadores norte-americanos trabalham na elaboração de um projeto de lei que poderá exigir que empresas de inteligência artificial comprovem a adoção de medidas para evitar danos provocados por seus sistemas. A proposta ainda está em negociação e pode incluir avaliações de riscos, auditorias independentes e planos de resposta para incidentes envolvendo modelos avançados.
O senador Mark Warner, democrata da Virgínia e uma das principais autoridades do Congresso norte-americano em assuntos relacionados à tecnologia, já discutiu a questão da segurança da inteligência artificial com Amodei e Sam Altman.
Paralelamente ao debate legislativo, o governo Trump enfrenta uma disputa com a Anthropic relacionada ao uso militar de seus sistemas. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, impediu a empresa de participar de determinados contratos militares depois que a companhia se recusou a autorizar o uso de seus modelos Claude para vigilância doméstica e armas autônomas.
A Anthropic recorreu à Justiça contra a decisão. Em 27 de agosto, um juiz federal decidiu a favor da empresa em uma das ações relacionadas ao conflito. Trump também criticou publicamente Amodei e afirmou que o governo já teria tomado medidas contra integrantes do setor em situações consideradas potencialmente prejudiciais.
O embate revela uma divisão cada vez mais evidente sobre o caminho que os Estados Unidos devem seguir no desenvolvimento da inteligência artificial. Trump e Vance defendem que novas regulamentações não podem comprometer a competitividade norte-americana diante da China. Já executivos e pesquisadores argumentam que o avanço dos modelos mais poderosos exige mecanismos específicos de fiscalização, auditorias e avaliações de segurança.
No centro da discussão está a capacidade das atuais estruturas de fiscalização de acompanhar a velocidade de evolução da tecnologia. Enquanto o governo afirma que já possui instrumentos suficientes para responsabilizar as empresas, parte do setor defende que novas regras são necessárias para reduzir os riscos antes que sistemas cada vez mais autônomos sejam amplamente utilizados.







