
Não existe advogado digno desse nome que nunca tenha estado, nos corredores ou nos átrios dos fóruns, em conversas informais cujos temas vão do futebol a mulheres, passando, é lógico pelas agruras que enfrentamos no dia-a-dia da emperrada máquina judiciária.
E surgem, então, histórias de juízes que são exímios na aplicação do agravo de gaveta, eis que uma demanda perante eles tende a se tornar eterna como o tempo e o espaço. De coleguinhas que confundiram embargos infringentes com estado de flagrância. E (por que não?) de magistrados que superaram a fase da dúvida, adquirindo a plena certeza de que são deuses.
Tudo ajuda a superar o estresse que se apresenta inevitável quando o cliente nos indaga do andamento de sua causa, indignado porque ela não termina. Aí exsurge a necessidade de paciência oriental, porque é óbvio que o cliente não pode entender a razão da demora, na medida em que nós mesmos não temos condições de compreendê-la.
Uma dessas conversas a que aludo jamais me saiu da memória. Na segunda metade dos anos sessenta, o fórum ainda funcionava no Palácio da avenida Eduardo Ribeiro e eu engatinhava na profissão, saído que fui da “jaqueira” no longínquo ano de 1965.
De uma roda, bem no meio do salão de entrada, participavam, entre outros, o professor Adriano de Queiroz e um desembargador.
Mestre Adriano, culto, humanista, professor de direito na acepção mais pura e verdadeira que se possa dar à expressão, era de uma ironia ferina e impiedosa.
O magistrado, que não era especialmente conhecido por sua inteligência nem por seus dotes na ciência de Ulpiano, num determinado momento da conversa e com ares de quem inventou a roda, exclama a respeito do tema em discussão: “Tive uma idéia!”
A voz anasalada do professor se fez ouvir imediatamente, cruel e implacável: “Não diga!?”
Fora outro o objeto da gozação, as gargalhadas teriam sido intermináveis. Na presença do divino senhor, entretanto, os circunstantes foram dando um jeito de se afastar para, longe dali, rirem a bandeiras despregadas.
Mestre Adriano de Queiroz se foi em 1969 e, com ele, começou a desaparecer toda uma geração de advogados que deveria servir de exemplo e paradigma a quantos optam pela sofrida profissão.
Exercê-la, não há de ser apenas a busca da recompensa pecuniária, traduzida nos honorários. Tem ela algo de sublime, algo capaz de transformar o verdadeiro advogado num misto de piedoso pastor e assistente social, candente e destemido diante da arrogância, mas humilde e benevolente com quantos buscam a realização de direitos primários, postergados por uma ordem jurídico-social injusta desde o nascedouro.
Pego-me a sonhar. Não importa. Pelo menos por isso não pago imposto. E, o que é melhor, lembra-me que estou vivo porque vida há de ser sempre sinônimo de esperança.





