
Fazer exercício todos os dias, seguir dieta rígida e buscar um corpo definido se tornou parte da rotina de milhões de pessoas. Mas, para alguns, a preocupação com a aparência física ultrapassa os limites da saúde e se transforma em sofrimento psicológico.
A vigorexia, também chamada de transtorno dismórfico muscular, faz com que a pessoa se enxergue pequena, fraca ou insuficientemente musculosa mesmo quando apresenta um corpo atlético.
O problema vem chamando atenção de especialistas diante do aumento da pressão estética nas redes sociais e da popularização de conteúdos ligados à hipertrofia extrema. Em muitos casos, o transtorno leva a treinos excessivos, isolamento social e até uso indiscriminado de anabolizantes em busca de um padrão corporal considerado “ideal”.
O psiquiatra Gustavo Yamin Lopes, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, explica que a vigorexia não está relacionada apenas ao gosto por academia ou exercícios físicos. Segundo ele, o problema começa quando a percepção corporal passa a dominar a vida da pessoa.
“A vigorexia é uma condição em que a pessoa desenvolve uma preocupação excessiva e persistente com a ideia de não estar suficientemente forte ou musculosa, mesmo quando apresenta um corpo dentro ou acima do esperado”, afirma.
Entre os principais sinais estão sofrimento intenso ao perder treinos, comparação constante com outras pessoas, checagem frequente do corpo no espelho e sensação persistente de nunca estar “grande” o suficiente.
O cardiologista Felix Ramires, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, destaca que a vigorexia pode fazer a pessoa reorganizar toda a vida em função do corpo.
Especialistas reforçam que atividade física é fundamental para a saúde cardiovascular, mental e metabólica. O problema aparece quando o treino deixa de ser uma escolha saudável e passa a gerar culpa, ansiedade e prejuízo para outras áreas da vida.
Segundo Lopes, uma pergunta simples ajuda a perceber quando existe exagero: “A atividade física está ampliando a vida da pessoa ou ela passou a organizar toda a vida em função do treino?”.
Ramires afirma que o comportamento obsessivo costuma interferir diretamente na rotina pessoal e profissional. “A pessoa começa a chegar atrasada no trabalho, deixa de sair com amigos ou falta encontros familiares porque quer treinar. A academia passa a ocupar um espaço desproporcional na vida dela”, alerta.
Além dos impactos emocionais, o excesso de exercícios pode provocar lesões musculares, fadiga crônica e problemas cardiovasculares. O cardiologista explica que treinos intensos e prolongados também podem sobrecarregar o coração, especialmente quando associados ao uso de substâncias para ganho muscular.
A busca incessante por músculos pode aumentar o risco do uso inadequado de anabolizantes e hormônios. Embora nem toda pessoa com vigorexia utilize essas substâncias, especialistas afirmam que o transtorno pode favorecer o comportamento.
“O objetivo deixa de ser saúde ou desempenho e passa a ser aliviar uma insatisfação corporal que nunca desaparece completamente”, afirma o psiquiatra.
Ramires alerta que o uso excessivo de testosterona e outros anabolizantes pode causar alterações importantes no coração. “Essas substâncias ajudam a aumentar a massa muscular, mas também podem aumentar a espessura do músculo cardíaco e elevar o risco de complicações graves”, explica.
O tratamento da vigorexia envolve acompanhamento multidisciplinar, com psiquiatria, psicoterapia e suporte médico. O objetivo não é afastar a pessoa da atividade física, mas reconstruir uma relação mais saudável com o corpo e reduzir o sofrimento associado à autoimagem.
Com informações de Metrópoles







