Por Luís Lemos, professor, filósofo e escritor

Abrimos a temporada de 2026 do projeto Vozes da Literatura de Manaus (VLM) com a presença luminosa da premiada escritora Sandra Godinho, autora consagrada, finalista de importantes prêmios literários nacionais e voz fundamental na narrativa contemporânea da Amazônia. Sua trajetória, sensibilidade e potência criativa inauguram uma série que promete emocionar, provocar reflexões e aproximar ainda mais o público da riqueza e da diversidade da literatura produzida em Manaus.

VLM – Quem é Sandra Godinho?

Sou uma mulher de 65 anos que não se cansa de experimentar novas formas de narrativa, de aprender e de tentar se construir como escritora. Nasci em São Paulo, mas moro em Manaus há 23 anos, cidade que aprendi a amar profundamente, assim como seu povo, suas histórias e seus encantados. Foi em Manaus que me graduei em Letras, cursei o Mestrado e ingressei no projeto de extensão Clube do Autor, coordenado pelo professor Lajosy Silva, espaço fundamental para minha descoberta como escritora e para a consolidação da minha trajetória literária.

VLM – O que a inspirou a trilhar o caminho da escrita?

Acredito que todo escritor escreve a partir de seus incômodos: uma injustiça, uma dor, uma inquietação ou uma busca de entendimento. Qualquer elemento pode servir de inspiração — uma notícia, uma experiência pessoal, uma história ouvida. Tudo se transforma em matéria ficcional nas mãos de um autor. Foi nesse movimento de escuta, sensibilidade e inquietação que encontrei a escrita como forma de expressão.

VLM – Quantos livros você já publicou e quais são eles?

Publiquei 14 livros e, neste ano, publicarei mais dois: Paralelo 11, finalista do Prêmio Leya 2024, e Inventário de um silêncio, que será lançado na FLIP.

VLM – Como você se define no campo literário? Considera-se mais contista, poeta ou romancista, ou transita por diferentes gêneros?

Sinto-me mais à vontade como contista e romancista, embora me arrisque pouco na poesia. Minha escrita transita principalmente entre o conto e o romance, dialogando com fatos históricos, crendices e com o léxico da região amazônica.

VLM – De que forma a literatura de Manaus e a cultura local influenciam sua escrita?

A temática amazônica está profundamente entranhada na minha obra. Ela é meu respiro e minha principal fonte de inspiração. Um exemplo é Tocaia do Norte, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021, que narra o massacre da expedição do padre Calleri, episódio que resultou no genocídio do povo Waimiri-Atroari. A cultura, as crenças, a história e os conflitos da região atravessam minha escrita de forma orgânica e sensível.

VLM – Quais desafios você enxerga para quem produz literatura em Manaus hoje?

O principal desafio é a falta de representatividade no mercado editorial nacional. Também enfrentamos a escassez de leitores e a pouca adoção das obras locais nas escolas e universidades da própria região, salvo iniciativas isoladas de alguns professores. Ainda assim, é fundamental destacar o trabalho de escritores, educadores, mediadores de leitura, clubes de leitura e instituições culturais que lutam diariamente para manter viva a literatura amazonense.

VLM – Que mensagem você deseja transmitir aos leitores por meio de seus livros?

Desejo transmitir o valor da nossa identidade amazônica, tão pouco conhecida e divulgada pelo país. Acredito que nossas histórias, dores, memórias, encantamentos e resistências precisam ser narradas, registradas e preservadas, como forma de reconhecimento cultural e de fortalecimento da nossa própria voz.

VLM – Deixe uma mensagem às leitoras e leitores do Fato Amazônico.

Temos histórias maravilhosas ainda para serem escritas e contadas, e tenho certeza de que não iremos decepcioná-los. Vocês são fundamentais para resgatar, valorizar e divulgar nossa identidade amazônica. Contamos com vocês para construir essa ponte de reconhecimento e de entendimento da nossa própria região.

Artigo anteriorLatino se envolve em acidente de ônibus no interior de SP
Próximo artigoSessão Solene na CMM marca 46 anos do PT e destaca legado de direitos e inclusão social