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Em meio a um quase total apagão midiático provocado pelo corte da internet, o regime iraniano intensificou a repressão aos protestos que eclodiram nas últimas semanas. A passagem de fronteira de Kapiköy, entre o Irã e a Turquia, tornou-se uma das poucas fontes de informações em primeira mão sobre a escalada da violência e a crescente frustração da população.

O Apagão da Internet e a Busca por Informação

O acesso à internet no Irã está cortado há dez dias, dificultando o acesso à informação e a confirmação do real número de vítimas. Embora linhas telefônicas e serviço de SMS tenham sido restabelecidos na semana passada, tentativas de restaurar alguns serviços digitais foram temporariamente ativadas no domingo (18/1), mas logo desligadas, conforme a organização de monitoramento NetBlocks. Hossein Afshin, vice-presidente do Irã para Ciência, Tecnologia e Economia do Conhecimento, declarou na segunda-feira (19/1) que a internet voltará a funcionar gradualmente esta semana.

Nesse cenário de silêncio imposto, a fronteira de Kapiköy é uma rota vital não apenas para comerciantes e pequenos contrabandistas que buscam sobreviver à grave crise econômica — com preços subindo 50% ao ano e a desvalorização da moeda —, mas também para aqueles que tentam deixar o país em busca de acesso à internet ou fugindo da repressão. Voos partindo do Irã estão sendo cancelados, forçando muitos a viajar para a Turquia para embarcar em voos para a União Europeia.

Repressão Brutal e o Clima de Medo

Apesar de uma “calma frágil” reinar no país, a presença de policiais armados e da Guarda Revolucionária patrulhando as principais vias é constante. Testemunhas relatam que esta onda de repressão é “diferente” das anteriores (2009, 2019 e 2022). Zahra, moradora de Teerã, conta que o corte da internet é usado para “matar impunemente”. Os relatos de iranianos, cujos nomes foram alterados para proteção, são chocantes:

  • Reza, de Teerã, descreve relatos de corpos nas ruas em bairros como Tehranpars e a busca de
  • amigos por entes queridos em necrotérios lotados.
  • Ali, que participou de manifestações, testemunhou a polícia atacando pessoas com armas de fogo e facas, prendendo e matando manifestantes.
  • Um casal de Tabriz, cidade no norte do Irã, descreveu a situação como “uma guerra”, com espancamentos, tiroteios e inúmeras prisões.

Números da Repressão e Reações Oficiais

As autoridades iranianas reconheceram pelo menos 3.000 prisões, mas organizações de direitos humanos como a ONG norueguesa Iran Human Rights (IHR) estimam que ao menos 3.428 manifestantes foram mortos. Outras organizações apontam para mais de 10 mil mortes, embora sem confirmação independente.

O governo iraniano, por sua vez, também fala em mais de 3.000 mortes, mas atribui-as a apoiadores da República Islâmica vítimas de “terroristas” e vândalos orquestrados pelos Estados Unidos e Israel. Ali, um dos entrevistados, classifica essas alegações como “absurdas” e testemunhou a polícia destruindo carros para culpar os manifestantes.

Frustração e Desamparo

Os entrevistados pela RFI concordam que o regime perdeu toda a sua legitimidade. “Eles mataram tanta gente, o regime tem que cair”, diz Zeynab, que expressa um sentimento de desamparo: “O mundo nos abandonou”.

Conforme o contexto fornecido, a repressão do movimento de protesto no Irã resultou em 2.571 mortes até o momento (dados de 14 de janeiro de 2025), incluindo 2.403 manifestantes, 147 indivíduos ligados ao governo, 12 crianças e nove civis não participantes da mobilização, de acordo com dados da HRANA. O internet blackout, que já dura sete dias, continua a dificultar o acesso à informação e a verificação desses números.

Com informações de Metrópoles

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