A chegada de uma estrutura de dragagem ao rio Solimões, nas proximidades da comunidade da Prainha, no município de Careiro da Várzea, na Região Metropolitana de Manaus, provocou preocupação entre aproximadamente 180 famílias que temem perder suas casas com o desmoronamento do barranco. Os moradores denunciam que a retirada de grandes volumes de areia do leito do rio pode comprometer a estabilidade da margem e agravar o fenômeno conhecido como terras caídas, recorrente em comunidades ribeirinhas do Amazonas.

A estrutura da empresa responsável pelo serviço chegou à localidade na quarta-feira (28), acompanhada por uma equipe do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). O objetivo informado para a intervenção é aprofundar o canal de navegação e evitar que balsas utilizadas no transporte de veículos entre a Ceasa, em Manaus, e o Careiro da Várzea encalhem durante a estiagem.

Entretanto, o serviço, que deveria proporcionar maior segurança à navegação, passou a ser questionado pelos comunitários. Eles afirmam que a retirada de areia ocorre em uma área próxima às residências, onde o avanço da erosão já teria obrigado famílias a recuar suas casas em outras ocasiões.

Líder comunitária alerta para risco de casas serem arrastadas pelo rio

A líder comunitária Antônia Rosely Reis afirma que a população não é contrária à melhoria das condições de navegação, mas teme as consequências da intervenção no local escolhido pelo DNIT.

Segundo ela, a empresa contratada estaria retirando grandes quantidades de areia do fundo do rio e armazenando o material em uma balsa.

“Esse serviço não pode continuar ou em breve teremos nossas casas arrastadas para o rio com o desmoronamento do barranco. Se tiram areia, o barranco perde a sustentação e cai”, alertou.

Antônia Rosely também questiona a destinação do material retirado e afirma que os moradores não receberam informações suficientes sobre a execução do serviço.

“O que se percebe é que a real intenção não é dragar o canal e sim tirar areia para fins comerciais”, declarou.

A afirmação representa uma suspeita levantada pela liderança comunitária e ainda não foi comprovada. A retirada e o armazenamento de sedimentos em balsas também podem fazer parte de operações regulares de dragagem, dependendo do método utilizado e da destinação autorizada para o material.

A líder comunitária defende que o DNIT avalie alternativas capazes de garantir a navegação sem colocar em risco as famílias.

“A dragagem do canal é importante, mas tem outra alternativa que poderia permitir a atracação sem qualquer transtorno”, acrescentou.

Ex-vereador afirma que rota alternativa aumentaria travessia em apenas cinco minutos

O ex-vereador Arnaldo Bandeira também criticou a intervenção e afirmou que existe uma alternativa para o deslocamento das balsas que transportam veículos entre Manaus e Careiro da Várzea.

Segundo ele, uma mudança no percurso acrescentaria aproximadamente cinco minutos à travessia e evitaria a necessidade de dragagem nas proximidades da comunidade.

“Existe uma alternativa, um desvio de mais ou menos cinco minutos, na margem direita, pelo lado direito de quem vem da Ceasa para o Careiro da Várzea”, explicou.

Arnaldo afirmou que representantes do DNIT justificaram a intervenção como necessária para evitar o encalhe das embarcações durante o período de seca.

Entretanto, ele considera que o risco de desmoronamento deveria ser avaliado antes da continuidade dos trabalhos.

“Segundo o DNIT, tem que fazer a dragagem lá perto do barranco onde tem a comunidade. O perigo de cair a terra, o fenômeno da terra caída”, afirmou.

O ex-parlamentar lembrou que a erosão das margens do Solimões já provocou prejuízos aos moradores, que precisaram afastar suas residências do barranco.

“As casas já foram afastadas várias vezes para trás devido à queda da terra caída. Se fizer essa dragagem e tirar aquela areia dali, o barranco vai desabar”, alertou.

Moradores temem tragédia durante a madrugada

A principal preocupação dos comunitários é que uma eventual movimentação de terra ocorra durante a noite, quando as famílias estão dormindo.

Arnaldo Bandeira destacou que crianças, idosos e outros moradores poderiam ser surpreendidos por um desmoronamento.

“O medo nosso é de fazer essa dragagem e desabar tudo e a comunidade ser muito prejudicada, podendo perder até vidas, pessoas idosas, crianças. Se essa terra cair à noite, de madrugada, com chuva? O perigo é iminente”, declarou.

O ex-vereador também questionou a existência de estudos técnicos que comprovem a segurança da intervenção.

Segundo ele, durante uma reunião realizada com representantes do DNIT, os moradores solicitaram documentos que autorizariam a execução do serviço, mas não receberam as informações exigidas.

“Não foi feito um estudo, não apresentaram licença ambiental. O DNIT chegou sem nenhum tipo de respaldo documental na reunião”, afirmou.

A ausência de apresentação dos documentos aos moradores, entretanto, não comprova que as autorizações ambientais ou os estudos técnicos não existam.

Comunidade denuncia óleo na água e peixes mortos

Além do temor de desmoronamentos, os moradores relatam possíveis impactos ambientais associados à presença dos equipamentos de dragagem.

Arnaldo Bandeira afirmou que foram observadas manchas de óleo na água e peixes mortos nas proximidades do barranco.

“Muito óleo na água, tá cheio de óleo a água. Tem até uns peixes mortos na beira do barranco. A gente tá achando que é por causa do óleo”, relatou.

A comunidade suspeita que os resíduos estejam relacionados às máquinas utilizadas na operação.

Até o momento, porém, não há informações sobre análises ambientais que comprovem a origem do óleo ou estabeleçam relação entre a atividade de dragagem e a morte dos peixes.

Os relatos reforçam a necessidade de fiscalização ambiental para identificar eventuais irregularidades e avaliar possíveis danos ao ecossistema do rio Solimões.

Moradores procuram Defensoria Pública para tentar impedir dragagem

Diante da preocupação com a segurança das famílias, representantes da comunidade decidiram buscar apoio jurídico para questionar a continuidade dos serviços.

Arnaldo Bandeira informou que os moradores procuraram a Defensoria Pública para solicitar providências.

“A gente acabou de sair da Defensoria Pública e estamos tomando as nossas providências cabíveis para nos respaldar quanto a isso”, declarou.

Ele afirmou que a comunidade pretende insistir na suspensão dos trabalhos até que sejam esclarecidos os riscos e apresentadas as informações técnicas sobre a intervenção.

“Os comunitários não queremos de forma alguma que faça a dragagem. E digo mais, não tem necessidade de fazer dragagem. Existe a rota alternativa”, concluiu.

DNIT decretou emergência na travessia após identificar banco de areia

A dragagem questionada pelos moradores faz parte de uma intervenção anunciada pelo DNIT para enfrentar os impactos da estiagem na travessia entre Manaus e Careiro da Várzea, trecho que integra a BR-319.

No dia 20 de outubro, equipes do DNIT e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) realizaram uma inspeção técnica e identificaram dificuldades de navegação provocadas pela formação de um banco de areia.

Segundo o DNIT, a intervenção utiliza uma draga de sucção e recalque para remover sedimentos e restabelecer condições seguras para a circulação das balsas.

A gravidade da situação levou o órgão federal a declarar emergência na travessia. A medida foi formalizada pela Portaria nº 5.208, de 19 de outubro de 2026, publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte.

De acordo com informações divulgadas pela BandNews Difusora, o nível do rio estava 2,79 metros abaixo do registrado no mesmo período de 2025.

O DNIT estima que pelo menos 15 mil pessoas poderiam ser afetadas caso os problemas de navegação não fossem solucionados, com possíveis consequências para o abastecimento, o transporte de passageiros, o escoamento da produção agrícola e o acesso a serviços essenciais.

Dragagem precisa considerar riscos ambientais e estabilidade das margens

A preocupação dos moradores também levanta questionamentos sobre os estudos técnicos e as medidas ambientais adotadas na execução do serviço.

A Instrução Normativa nº 10/2026 do próprio DNIT estabelece diretrizes para o planejamento e a execução de dragagens, incluindo levantamentos hidrográficos, avaliação da movimentação de sedimentos e monitoramento ambiental.

A norma prevê, entre outras medidas, o acompanhamento da turbidez da água e a adoção de providências para reduzir impactos ambientais quando necessário.

A exigência de licença ambiental, entretanto, depende do enquadramento da intervenção na legislação vigente. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental prevê hipóteses de dispensa para determinadas dragagens de manutenção que não ampliem as dimensões anteriormente existentes dos canais. Isso não elimina a necessidade de verificar quais regras se aplicam à obra no Careiro da Várzea.

O ponto central do conflito é conciliar a segurança da navegação com a proteção das famílias que vivem às margens do Solimões. Enquanto o DNIT considera a dragagem necessária para manter a travessia funcionando, os moradores pedem a avaliação de uma rota alternativa e garantias de que a retirada de sedimentos não aumentará o risco de desmoronamentos.

Até o fechamento desta matéria, não havia sido localizada manifestação específica do DNIT sobre as denúncias de risco às residências, possível contaminação da água, destinação comercial da areia ou documentação ambiental solicitada pela comunidade.

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