Por Carlos Santiago

No Brasil, apesar das conquistas institucionais e políticas públicas alcançadas nas últimas décadas, uma parcela significativa da população continua preservando e defendendo uma terrível tradição sócio-histórica, marcada pelo preconceito regional e social, pelo autoritarismo, pelo patrimonialismo, pelo patriarcado, pela desigualdade econômica, pela forte violência e pela submissão do país a interesses estrangeiros. Essa herança manifesta-se no cotidiano do povo brasileiro e ganha maior visibilidade quando a sociedade se divide durante as eleições, como ocorreu no último pleito presidencial.

Não é possível dissociar as violências políticas e de gênero ocorridas no período pós-eleitoral, os preconceitos expressos nas redes sociais, as posturas autoritárias de indivíduos e governantes, as perseguições ideológicas nas relações de trabalho e a valorização de referências culturais e políticas dos Estados Unidos da América e da Europa sem compreender essa realidade histórica.

A vitória presidencial de um candidato com posições mais inclusivas, fraternas, soberanas e respeitosas à diversidade e de defesa dos avanços expressos na Constituição de 1988 representa um saldo positivo do processo eleitoral. Entretanto, esse resultado não significa o fim dessa tradição perversa, nem significa que a maioria da população está contente.

Cabe ao presidente reeleito trabalhar para superar esse legado negativo e construir novos caminhos econômicos e sociais para um Brasil próspero, com garantia dos direitos fundamentais, respeito às instituições, ampliação dos espaços de participação popular e combater a cultura da violência. Essa, certamente, não é uma tarefa fácil.

Entre os principais desafios estão o enfrentamento ao patrimonialismo, a consolidação da agenda ambiental, a garantia dos direitos dos povos indígenas e o emprego mais frequente de instrumentos de democracia direta, como plebiscitos e referendos, inclusive por meio das plataformas de comunicação digital.

E a democracia deve ser o meio para combater essa terrível tradição, além de ser compreendida como um processo histórico permanente, no qual as instituições e a sociedade precisam construir alternativas capazes de promover o avanço da inclusão social e libertar o Estado brasileiro dos interesses privados.

O cenário eleitoral brasileiro de 2026 pode ser entendido ainda como parte de uma disputa mais ampla em torno dos rumos do país. A questão central não se restringiu à definição de quem ocuparia os cargos políticos, mas envolveu também os valores, os direitos, as modalidades de participação e as concepções de sociedade que deverão orientar o futuro nacional, com ou sem essa terrível tradição.

Sociólogo, Cientista Político, Filósofo e Advogado.

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