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O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, nessa quarta-feira (4/11), manter a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, em 13,75% ao ano, interrompendo um ciclo de cortes que teve início em março. Mas afinal, o que isso representa para o bolso do brasileiro?

A decisão foi unânime. No comunicado da decisão, os integrantes do Copom consideraram que, desde a última reunião, em 16 de setembro deste ano, houve uma piora tanto no ambiente interno quanto no externo.

Para o especialista em gestão financeira, controladoria e auditoria, Vanderson Aquino, na prática, o consumidor segue encontrando crédito caro, com os juros podendo aumentar bastante o valor final da compra. Na visão de Aquino, o brasileiro deve analisar o atual cenário da Selic e, se possível, juntar uma entrada maior antes de pensar em comprar algo financiado.

“No imóvel, também entram na conta o aluguel pago durante a espera e as condições da oportunidade. No carro, é preciso avaliar se a troca é uma necessidade ou um desejo que pode ser adiado. Minha orientação é comparar propostas pelo Custo Efetivo Total, que inclui juros, impostos, tarifas e demais despesas. A Selic influencia o crédito, mas não é a taxa que o consumidor encontra no contrato”, analisa Aquino.

Os diretores do BC apontaram que o prolongamento da guerra no Oriente Médio fez os preços do petróleo subirem, acompanhado de políticas monetárias mais restritivas em economias avançadas. Além disso, o pronunciamento reforça a postura de cautela frente à política fiscal interna e ao cenário de incertezas, sem dar sinais sobre a tendência para a próxima reunião, em dezembro.

Cautela

A manutenção dos juros altos afeta diretamente as decisões de consumo de longo e médio prazo. A administradora e mestre em finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lilian Marques Nagem Byrro explica que o cenário econômico mudou no pós-eleição, com o mercado passando a prever a manutenção de juros mais altos devido a incertezas fiscais e pressões inflacionárias. No entanto, a especialista explica que o planejamento individual não deve tentar adivinhar os rumos do mercado.

“Nesse contexto, para a vida individual, não acho que vale a pena tentar prever o futuro. Sim, o custo de financiamento está alto e se você puder não fazer uso dele, melhor. Porém, em alguns casos, como na compra de imóveis, caso a decisão faça sentido em seu planejamento financeiro, não vejo por que adiar uma decisão para correr um risco que pode te beneficiar ou te atrapalhar”, pontua Lilian.

Por outro lado, o economista Jadson Xavier pondera que a decisão sobre adiar ou não uma aquisição depende da modalidade do crédito. Em relação aos imóveis, como os prazos variam entre 20 e 30 anos, variações nas taxas representam dezenas de milhares de reais ao longo do contrato.

“Se a compra não for urgente, tecnicamente faz sentido esperar um ciclo de corte de juros, porque o Banco Central só mantém os juros altos enquanto a inflação não converge para a meta. Quando isso acontece, o ciclo de queda tende a começar. Portanto, vale a pena esperar”, defende Xavier.

Em relação aos veículos, o economista observa que o prazo mais curto faz com que o impacto absoluto seja menor, devendo a escolha se basear na necessidade imediata.

Endividamento

Para quem já está com o orçamento no vermelho, o cenário exige maior atenção. Vanderson Aquino adverte que o limite do cartão e o cheque especial não são extensão da renda, mas sim crédito de alto custo que precisa ser devolvido. Ele sugere mapear todas as dívidas e buscar a renegociação, trocando débitos caros por opções mais baratas, sempre atento para não alongar excessivamente o prazo nem voltar a usar o limite liberado.

Jadson Xavier reforça o alerta sobre o efeito “bola de neve” promovido pelos juros compostos nas modalidades rotativas, cujas taxas históricas ultrapassam 400% ao ano no cartão de crédito.

Lilian Byrro lembra que as taxas do cartão e cheque especial são tão elevadas que a manutenção pontual da Selic pouco altera esse valor final. O maior perigo para o endividado continua sendo a inflação.

“A pessoa que está endividada, em muitos casos, entrou no endividamento sem planejamento para conseguir fechar as contas do mês – um desafio que foi se intensificando nesse processo inflacionário. Só que agora, o seu orçamento fica duplamente menor: primeiro pela inflação que segue alta e segundo pela parcela de juros que diminui a sua receita. Nesses casos, é preciso olhar com cuidado para o orçamento, cortar ao máximo as despesas, buscar novas fontes de receita e até cogitar alguma desimobilização”, destaca Lilian.

Copom

  • Os diretores do Copom são responsáveis por decidir se vão cortar, manter ou elevar a taxa Selic. Isso, porque é missão do Banco Central (BC) controlar o avanço dos preços de bens e serviços do país, que seguem subindo, mas com menos força;
  • Antes do ciclo de reduções iniciado em março, a Selic se manteve em 15% ao ano por cinco reuniões consecutivas.
  • A decisão era esperada majoritariamente por integrantes do mercado financeiro, que já precificavam a manutenção em 13,75% nesta reunião.

Inflação nas compras

Consumidores que não estão acostumados com o mundo econômico só sentem os impactos da mudança da Selic quando vão às compras. Aquino detalha que o efeito da Selic é gradual e leva meses, moderando o consumo e reduzindo a pressão sobre a demanda, embora não resolva problemas pontuais de oferta.

Jadson Xavier detalha o funcionamento dessa engrenagem por meio do conceito econômico de defasagem monetária.

“Os modelos macroeconômicos trabalham com a ideia de defasagem da política monetária. O efeito começa a aparecer de forma mensurável entre seis e nove meses após uma mudança na taxa de juros, enquanto o efeito pleno costuma levar de 12 a 18 meses para se materializar nos índices de preços. Na prática, isso significa que o consumidor sente primeiro o aperto no próprio bolso, com crédito mais caro, muito antes de perceber algum alívio nos preços do supermercado. É uma assimetria desconfortável, mas é assim que a política monetária opera”, observa Xavier.

Para Lilian Byrro, a taxa alta atua diretamente na contenção de aumentos mais expressivos. Segundo a especialista, é exatamente por isso que o consumidor final tem dificuldade de perceber o valor da medida.

“O consumidor não vai “sentir o efeito dessa medida no preço” porque não é uma medida que leva a uma diminuição do preço dos produtos. O foco dela é diminuir a velocidade com que os preços aumentam. Por isso é tão difícil para o consumidor final entender o valor dessa manutenção. Contudo, uma diminuição na taxa de juros seria sim mais facilmente sentida pelo impacto maior que teria no aumento dos preços”, esclarece ela.

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