As ações federais de combate aos incêndios florestais no Amazonas já resultaram na extinção de 337 ocorrências desde o início da temporada de queimadas. Foto: Rogério Cassimiro/MMA

A população de Manaus começou a sentir um alívio nesta quarta-feira (21), depois de enfrentar dias de intensa fumaça que comprometeu a qualidade do ar, prejudicou a visibilidade e provocou preocupação com a saúde dos moradores. A melhora ocorre em meio à redução de 65,8% no número de focos de incêndio registrados no Amazonas nos últimos dez dias, segundo dados do Painel do Fogo, e ao reforço das operações de combate às queimadas em diferentes regiões do estado.

O cenário representa uma mudança importante diante da crise ambiental que atingiu a capital e municípios do interior. Apesar dos sinais positivos, a situação ainda exige atenção das autoridades, uma vez que dezenas de incêndios permanecem ativos e milhares de pessoas continuam expostas aos efeitos da estiagem e da poluição atmosférica.

Um dos principais esforços para enfrentar a emergência vem da operação coordenada pelo Governo Federal, que já lançou 1.118.600 litros de água sobre áreas atingidas pelo fogo, utilizando aeronaves mobilizadas desde 10 de outubro.

Segundo o balanço federal, as operações aéreas acumularam 390,5 horas de voo e 369 lançamentos de água. Desde o início da temporada de combate, as ações federais contribuíram para a extinção de 337 ocorrências de incêndio florestal.

A redução dos focos e a melhora na qualidade do ar são sinais de recuperação, mas ainda não é possível atribuir esses resultados exclusivamente às operações aéreas. As condições meteorológicas, incluindo chuvas e ventos, também podem influenciar a concentração de fumaça e o comportamento dos incêndios.

Força-tarefa mobiliza 13 aeronaves e centenas de profissionais

Para combater os incêndios, especialmente em áreas de difícil acesso, o Governo Federal mantém 13 aeronaves à disposição das operações no Amazonas.

A estrutura inclui seis aviões Air Tractor, utilizados diretamente no lançamento de água, cinco helicópteros empregados no transporte de brigadistas, equipamentos e apoio ao combate, além de dois aviões KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB).

Os KC-390 utilizam o Sistema Modular Aerotransportável de Combate a Incêndios (MAFFS), tecnologia que permite despejar grandes volumes de água sobre áreas atingidas pelas chamas em aproximadamente sete segundos.

A operação também mobiliza 462 brigadistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de 54 militares da FAB e 41 integrantes da Força Nacional.

O reforço federal inclui ainda apoio à contratação de 116 bombeiros do Amazonas.

Em terra e nos rios, as equipes contam com 58 veículos e nove embarcações para transportar equipamentos, deslocar profissionais e alcançar regiões isoladas, onde a logística de combate aos incêndios é especialmente desafiadora.

Amazonas ainda registra 85 eventos de fogo ativos

Apesar da redução no número de focos, o balanço federal aponta que o Amazonas ainda registra 85 eventos de fogo ativos, distribuídos por 30 municípios. Desse total, 22 municípios estão em situação de emergência.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também indicam diminuição das ocorrências. Entre 12 e 18 de outubro, foram identificados 548 focos de calor, uma redução de 470 registros em comparação com os sete dias anteriores.

Os municípios que concentraram os maiores números de focos nesse intervalo foram Itacoatiara, com 59 ocorrências; Autazes, com 46; e Boa Vista do Ramos, com 39.

Embora a diminuição seja significativa, a presença de incêndios ativos demonstra que o combate ao fogo continua sendo uma prioridade, principalmente nas regiões mais afetadas pela estiagem.

Governo Federal amplia ações e reforça investigação de queimadas criminosas

Durante agenda realizada em Manaus no domingo (18), o Governo Federal anunciou novas medidas para ampliar o enfrentamento aos incêndios florestais.

Entre as iniciativas está a instalação de um Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas na capital, responsável por coordenar as operações militares de apoio ao combate às chamas.

Também foi anunciada a implantação de uma base da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), prevista para terça-feira (20), com o objetivo de fortalecer o atendimento à população afetada pela fumaça.

Outra frente envolve a ampliação do apoio financeiro ao governo estadual e às prefeituras, além da atuação integrada dos órgãos de segurança pública para investigar possíveis crimes ambientais relacionados às queimadas.

As investigações buscam identificar responsáveis por incêndios provocados de forma ilegal e garantir a responsabilização dos envolvidos.

Uso do fogo continua proibido durante a emergência

Mesmo com a melhora dos indicadores, as autoridades reforçam que a utilização do fogo na vegetação permanece proibida no Amazonas durante a vigência do decreto estadual de emergência.

A legislação brasileira já estabelece restrições ao uso do fogo, especialmente diante dos riscos de propagação de incêndios, destruição da biodiversidade, degradação do solo e danos à saúde humana.

O artigo 38 da Lei nº 12.651/2012, que instituiu o Código Florestal, estabelece a proibição como regra geral, admitindo exceções previstas na legislação. A Lei nº 14.944/2024 também regulamenta a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

No Amazonas, a proibição temporária durante a emergência busca evitar novos focos e impedir o agravamento da crise ambiental.

Para os moradores de Manaus, a melhora na qualidade do ar representa um alívio depois de dias difíceis. No entanto, o desafio das autoridades permanece: impedir que novos incêndios voltem a cobrir a capital de fumaça e comprometam a saúde da população.

Monitoramento confirma melhora, mas alerta para risco de novos incêndios

O boletim de monitoramento ambiental do Ministério Público de Contas do Amazonas, divulgado na terça-feira (20), já apontava uma melhora expressiva na qualidade do ar em Manaus.

Segundo o documento, nove estações do sistema SELVA, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registraram concentrações de partículas finas (PM2,5) entre 37,8 e 45,6 microgramas por metro cúbico. A plataforma IQAir também apontou melhora, com índice de qualidade do ar de 77 às 8h, classificado como moderado.

O órgão, entretanto, fez uma ressalva importante: a presença de nuvens pode dificultar a identificação de incêndios por satélite. Por isso, a redução nas detecções de focos não significa necessariamente que todos os incêndios estejam controlados.

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