
A Receita Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), deflagraram nesta quinta-feira (24) a Operação Crédito Oculto, que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado à compra da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana. A operação é um desdobramento da Carbono Oculto, investigação que apura fraudes bilionárias no setor de combustíveis.
Entre os principais alvos da ação estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, apontado como diretor do Banco Genial, e Antonio Carlos Freixo Junior, ligado à Entre Investimentos, empresa relacionada ao Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ao todo, são cumpridos mandados de busca e apreensão em 29 endereços vinculados a 24 empresas e 13 pessoas físicas.
As ordens judiciais foram executadas em diferentes cidades. Em São Paulo, foram cumpridos 26 mandados, sendo 18 na capital e os demais em Barueri, Cotia, Guarulhos, Paulínia e São José dos Campos. A operação também alcançou endereços em Betim, em Minas Gerais; Itajaí, em Santa Catarina; Rio de Janeiro; Senador Canedo, em Goiás; Várzea Grande, em Mato Grosso; e Vila Velha, no Espírito Santo.
Segundo o Gaeco, os investigados teriam utilizado estruturas empresariais e financeiras complexas para ocultar a origem dos recursos e os verdadeiros beneficiários de negócios envolvendo empresas do setor sucroalcooleiro e de combustíveis.
A apuração aponta que, inicialmente, teria sido criada uma estrutura para esconder os responsáveis pelo controle de uma usina sucroalcooleira localizada no interior de São Paulo. Posteriormente, essa estrutura teria sido utilizada como parte de uma operação destinada à aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
De acordo com a Receita Federal, a estrutura financeira utilizada na aquisição simulada da usina movimentou pelo menos R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Para os investigadores, o volume movimentado reforça os indícios de que empresas e fundos teriam sido utilizados para dificultar o rastreamento da origem dos recursos, além de ocultar patrimônio e os beneficiários efetivos dos negócios.
A titularidade da usina teria sido distribuída entre fundos de investimento e empresas que, aparentemente, não tinham relação entre si. As investigações, porém, apontam que essa organização societária poderia ter sido estruturada justamente para manter o controle econômico do empreendimento sem revelar os verdadeiros responsáveis.
Um dos pontos investigados envolve uma operação estimada em R$ 370 milhões relacionada a créditos da usina. Segundo a Receita, uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
A análise financeira realizada pelos investigadores apontou que parte significativa do dinheiro utilizado na aquisição das cotas teria vindo de fundos de investimento controlados pelo mesmo grupo investigado. A suspeita é de que a operação tenha criado um fluxo circular de recursos, dando aparência regular às transações e dificultando a identificação dos beneficiários finais.
A investigação aponta ainda que diferentes operadores do mercado financeiro teriam participado da estrutura montada para ocultar a titularidade da usina. De acordo com a Receita, essa estrutura teria servido posteriormente para viabilizar a aquisição da Terrana.
Para realizar a compra da distribuidora de combustíveis, os investigados teriam criado uma nova estrutura financeira envolvendo banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e empresas de fachada.
Segundo os investigadores, aproximadamente R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa teriam sido direcionados à usina para financiar a aquisição. Os recursos teriam passado rapidamente por contas de diferentes empresas antes de chegar à conta da companhia sucroalcooleira.
A Receita afirma que parte do dinheiro teria circulado por contas utilizadas como intermediárias em fintechs, classificadas pelos investigadores como contas de passagem. A movimentação, segundo o órgão, teria sido realizada em poucos minutos entre diferentes contas antes de os valores serem incorporados à estrutura utilizada na operação.
Outro mecanismo investigado envolve um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). Conforme a apuração, um fundo teria adquirido um CDB junto a uma instituição financeira tradicional. O dinheiro teria sido utilizado posteriormente em uma operação vinculada à emissão de duas Cédulas de Crédito Bancário destinadas a empresas consideradas de fachada pelos investigadores.
A suspeita é de que essas empresas tenham sido capitalizadas por meio da operação e utilizadas para ocultar os verdadeiros beneficiários da transação relacionada à compra da distribuidora de combustíveis.
Os investigadores também identificaram a utilização de um fundo imobiliário que teria dado suporte econômico à operação. Segundo a Receita, imóveis sob controle do grupo investigado não apareciam diretamente no patrimônio pessoal dos suspeitos, o que poderia dificultar a identificação dos responsáveis pelos ativos e criar uma camada adicional de proteção patrimonial.
Na estrutura investigada, cada empresa teria desempenhado uma função específica. Segundo a Receita, uma fintech era utilizada para permitir a circulação e fragmentação dos recursos, enquanto a empresa sucroalcooleira recebia os valores e os incorporava à atividade econômica formal.
Os fundos de investimento, conforme a investigação, teriam atuado como financiadores efetivos da estrutura, enquanto holdings seriam utilizadas para realizar aquisições. Já as chamadas empresas-veículo teriam servido como uma camada adicional entre a origem do dinheiro e os beneficiários dos ativos adquiridos.
Para os investigadores, a apuração revelou uma rede formada pela interligação de diferentes estruturas financeiras e empresariais. A Receita afirma que o modelo não estaria restrito a um único grupo, mas envolveria operadores do mercado financeiro que poderiam prestar serviços de lavagem de capitais a diferentes organizações criminosas.
Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, também aparece em outras investigações relacionadas ao caso Master. Ele firmou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), posteriormente homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Freixo Junior também é citado em uma investigação relacionada a recursos destinados ao orçamento do filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A Entre Investimentos, empresa ligada a Freixo, teria sido utilizada por Daniel Vorcaro para realizar repasses relacionados ao projeto.
O caso ganhou repercussão em maio, após a divulgação, pelo site The Intercept Brasil, de um áudio atribuído ao senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no qual ele cobrava recursos de Vorcaro para o filme.
Em nota, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá não integra mais a diretoria da instituição e deixou de ser sócio em maio de 2026, quando foi destituído. O banco informou ainda que forneceu ao Gaeco-SP informações relacionadas às operações investigadas e realizou as comunicações cabíveis ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A instituição declarou que, nas operações mencionadas, atuou dentro de suas atribuições e seguindo os procedimentos e normas aplicáveis de acordo com as informações disponíveis naquele momento.
Após tomar conhecimento dos fatos, o Banco Genial informou ter adotado medidas adicionais de governança e controle, incluindo uma investigação interna, revisão dos procedimentos relacionados às operações de crédito e o afastamento de Tupinambá dos processos decisórios. Posteriormente, segundo o banco, ocorreu a destituição do então diretor.
A instituição também afirmou ter contratado especialistas externos para revisar e aprimorar seus mecanismos internos de controle. Depois da deflagração da Operação Carbono Oculto, o Genial informou que renunciou à administração do Fundo Radford e continuou colaborando com as autoridades responsáveis pela investigação.
O Banco Genial declarou ainda que permanece à disposição dos órgãos competentes para fornecer documentos, informações e os esclarecimentos solicitados no decorrer das investigações.







