Uma criança autista, que perdeu a mãe e vende balas nas ruas de Fortaleza (CE) para ajudar no sustento da avó, foi exposta nas redes sociais após uma influenciadora digital se recusar a comprar seus doces porque o menino fez o gesto de “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O episódio, registrado no Mercado dos Peixes, na Beira-Mar da capital cearense, viralizou na noite de quarta-feira (28) e provocou uma onda de indignação e solidariedade.

O menino, identificado como Matheus, abordou uma mesa onde estavam a influenciadora Valéria Diniz e algumas amigas para oferecer balas e bombons. Em vez de simplesmente comprar ou recusar os produtos, a mulher passou a questionar a preferência política da criança e de sua família.

Ao ouvir uma referência a Lula, Valéria pediu que Matheus fizesse o gesto de “L” com a mão. O garoto atendeu ao pedido, mas a influenciadora afirmou que não compraria os doces. Enquanto isso, outras mulheres presentes à mesa riam da situação.

A própria influenciadora publicou a gravação nos stories de seu perfil, acompanhada da frase: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”.

O comentário provocou ainda mais indignação depois que veio a público que Matheus havia perdido a mãe e atualmente vive sob os cuidados da avó, Inês de Maria do Nascimento.

Menino perdeu a mãe e vende doces para ajudar a avó

Matheus é conhecido na região da Beira-Mar de Fortaleza por vender balas e bombons para complementar a renda familiar.

Segundo as informações divulgadas após a repercussão do vídeo, o menino é autista e mora com a avó desde a morte da mãe.

A rotina de vender doces nas ruas faz parte dos esforços da família para enfrentar as dificuldades financeiras.

O episódio ganhou repercussão não apenas pela recusa da compra, mas principalmente pela forma como a criança foi exposta publicamente e transformada em alvo de uma provocação política.

A situação levantou críticas sobre o uso de crianças em disputas partidárias, especialmente quando estão em condições de vulnerabilidade social.

Motociclistas e entregadores se unem para ajudar Matheus

A repercussão do vídeo provocou uma mobilização nas redes sociais. Internautas, influenciadores e trabalhadores começaram a compartilhar a história e organizar ações de solidariedade ao menino.

Um grupo de motociclistas e entregadores decidiu ir até a residência de Matheus para prestar apoio à criança e à avó.

Os trabalhadores levaram doações e demonstraram solidariedade à família, em uma iniciativa que ganhou destaque após a circulação das imagens.

O gesto foi interpretado por internautas como uma resposta ao constrangimento sofrido pelo menino.

Enquanto a publicação original provocou críticas à influenciadora, a mobilização dos trabalhadores passou a destacar a importância de oferecer apoio e oportunidades a crianças que vivem em situação de vulnerabilidade.

Influenciadora perde perfil com 70 mil seguidores e pede desculpas

Após a repercussão negativa, o perfil utilizado por Valéria Diniz saiu do ar. A conta reunia aproximadamente 70 mil seguidores.

A influenciadora, que havia manifestado apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, passou a utilizar outro perfil nas redes sociais.

Diante das críticas, ela publicou um pedido de desculpas pela situação envolvendo Matheus.

“Desculpa de verdade. Eu não queria passar essa visão! Espero que um dia você e sua família possa me perdoar!”, escreveu.

O pedido de desculpas ocorreu depois que o vídeo já havia alcançado grande repercussão e provocado manifestações de indignação.

Não há informações, no material divulgado, sobre eventual contato direto da influenciadora com a criança ou sua avó.

Exposição de crianças nas redes sociais levanta debate sobre respeito e dignidade

O episódio também trouxe à discussão os limites da exposição de crianças nas redes sociais e a utilização de preferências políticas como motivo de constrangimento.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que crianças e adolescentes têm direito ao respeito, à dignidade e à preservação de sua imagem.

O artigo 17 da legislação assegura a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, incluindo a preservação da imagem, da identidade e da autonomia.

Já o artigo 18 determina que todos têm o dever de proteger crianças e adolescentes de tratamentos desumanos, violentos, aterrorizantes, vexatórios ou constrangedores.

A eventual caracterização de uma infração no caso depende da análise das circunstâncias e da atuação das autoridades competentes.

Para além da discussão política, o episódio envolvendo Matheus chamou atenção para a realidade de crianças que enfrentam dificuldades financeiras e para a responsabilidade dos adultos na proteção de sua dignidade.

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