
A empresária Andreia Vieira, de 33 anos, morreu na madrugada de 12 de agosto, poucas horas após ser submetida a uma série de cirurgias plásticas em um hospital de Goiânia, em Goiás. A família apresentou uma representação criminal ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) e pediu a abertura de um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar as circunstâncias da morte.
Segundo a irmã da empresária, Djiane Vieira, que acompanhou Andreia durante todo o período no hospital, os procedimentos duraram cerca de oito horas. As cirurgias começaram às 7h45 do dia 11 de agosto e terminaram às 16h20.
Andreia passou por ritidoplastia facial profunda, frontoplastia com redução de testa, mentoplastia óssea e blefaroplastia superior, além de lipoaspiração e nanofat. De acordo com a representação apresentada pela família, os procedimentos custaram R$ 118 mil.
Segundo Djiane, Andreia morava havia cinco anos na Espanha e havia economizado durante dois anos para realizar as cirurgias.
“Era o sonho dela”, contou a irmã.
Família questiona atendimento após cirurgia
Após deixar o centro cirúrgico, Andreia foi encaminhada para a Sala de Recuperação Pós-Anestésica e, às 17h40, transferida para um quarto de internação comum.
A representação apresentada ao MP afirma que, naquele momento, a empresária apresentava edema facial severo, aumento significativo da língua e presença de sangue e secreções.
Segundo Djiane, a irmã passou a apresentar dificuldades para respirar e dores na região do pescoço. A família afirma que os sintomas teriam sido tratados como reações esperadas do pós-operatório.
Ainda conforme a representação, durante a noite Andreia teria relatado sensação de afogamento e dificuldade respiratória progressiva. Em determinado momento, teria pedido ajuda à irmã e afirmado que sentia algo anormal na região da glote.
Por volta das 22h, segundo o documento, a empresária teria pedido socorro repetidamente.
Às 0h50 do dia 12 de agosto, uma médica plantonista foi ao quarto após ser acionada. Conforme a representação, foi registrada no prontuário uma queixa de “desconforto cervical anterior”, sendo prescritos analgésico e oxigênio por cateter nasal.
A família questiona se a conduta adotada naquele momento foi adequada diante da evolução dos sintomas e pede que a questão seja analisada por perícia médica.
Empresária sofreu parada cardiorrespiratória
Por volta das 2h15, segundo a representação, Andreia sofreu uma queda abrupta na saturação e entrou em parada cardiorrespiratória.
Às 2h28, uma acompanhante enviou uma mensagem de áudio em um grupo de comunicação da clínica pedindo ajuda e afirmando que Andreia estava morrendo.
O cirurgião responsável pelos procedimentos chegou ao hospital entre 2h20 e 2h45, conforme os documentos apresentados pela família. A paciente já estava em parada cardiorrespiratória e recebia manobras de reanimação.
Apesar das tentativas de reanimação, Andreia não resistiu. O óbito foi declarado oficialmente às 4h15.
Exames anteriores também são questionados
Outro ponto levantado pela família envolve exames realizados por Andreia na Espanha antes da cirurgia.
Segundo a representação, testes realizados em 18 de junho apresentaram anticorpos IgM reagentes para Borrelia burgdorferi e Brucella. Os exames teriam sido encaminhados à equipe médica em 23 de julho.
A defesa afirma que os resultados deveriam ser avaliados por meio de investigação complementar antes da realização dos procedimentos. A família também questiona o fato de Andreia ter retornado de uma viagem entre Madrid e o Brasil apenas oito dias antes da cirurgia.
A representação pede que uma perícia determine se essas condições poderiam ter aumentado os riscos relacionados aos procedimentos.
Família questiona causa da morte
Após o óbito, o corpo da empresária foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia.
Segundo a representação, o exame necroscópico identificou secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares e trombose coronariana aguda.
A família solicita uma perícia médico-legal independente para esclarecer a causa definitiva da morte e verificar se existe relação entre os achados, as cirurgias e as complicações apresentadas durante o pós-operatório.
A representação também pede que seja investigada a alegação de que o cirurgião teria acompanhado o procedimento de necrópsia.
Família pede investigação ao MP
A família de Andreia pede ao Ministério Público de Goiás a instauração de um procedimento investigatório, além da preservação de prontuários, imagens de câmeras, registros eletrônicos, gravações e demais documentos relacionados ao atendimento.
A defesa sustenta que os fatos podem configurar, em tese, homicídio culposo com inobservância de regra técnica de profissão, mas ressalta que ainda é necessária uma investigação para estabelecer eventual responsabilidade e o nexo causal entre a conduta dos profissionais e a morte.
O documento também afirma que não há, até o momento, elementos suficientes para apontar a existência de dolo eventual.
A família ainda questiona a transferência de Andreia para um quarto comum após uma cirurgia extensa e pede que seja analisado se havia necessidade de acompanhamento em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
O hospital, o médico responsável, o Ministério Público de Goiás e o Conselho Regional de Medicina de Goiás foram procurados para comentar o caso. Até a publicação, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.







