Por Luís Lemos: professor, filósofo e escritor
Ao longo desta série, procurei mostrar que a Filosofia do Olhar não se limita a uma teoria abstrata, mas se constitui como uma forma de perceber, interpretar e transformar a realidade. Nesta quinta parte, desejo avançar para uma dimensão ainda mais sensível: o olhar como experiência de memória, identidade e pertencimento. Afinal, aquilo que vemos também é atravessado por aquilo que somos, pelo lugar de onde falamos e pelas histórias que carregamos dentro de nós.
Nessa perspectiva, nenhum olhar é vazio. Cada pessoa contempla o mundo a partir de suas vivências, afetos, dores, aprendizados e heranças culturais. É por isso que a Filosofia do Olhar nos ensina que perceber não é apenas captar o objeto diante de nós, mas também reconhecer a presença da memória em cada interpretação. Quando olhamos uma rua antiga, um rio amazônico, uma escola do bairro ou o rosto de alguém querido, não vemos apenas formas: vemos lembranças, sentidos acumulados, marcas do tempo e experiências que moldaram nossa identidade.
Essa dimensão torna-se especialmente rica quando pensamos a Amazônia. O olhar sobre a floresta, os rios, os povos e a cidade de Manaus não pode ser reduzido à paisagem ou a geografia. Há uma profundidade simbólica que une natureza, cultura, ancestralidade e existência. A Filosofia do Olhar permite compreender que cada elemento da realidade amazônica carrega uma narrativa viva, feita de resistência, memória coletiva e pertencimento. Olhar a Amazônia filosoficamente é também reconhecer sua alma cultural e humana.
No plano pessoal, essa reflexão nos convida a revisitar a própria trajetória. Muitas vezes seguimos adiante sem perceber o quanto nossas escolhas atuais são iluminadas por olhares do passado: a infância, os mestres, as leituras, os afetos familiares, os silêncios que nos ensinaram, as dores que nos amadureceram. O olhar filosófico recupera essa dimensão memorial e nos ajuda a compreender que somos também aquilo que aprendemos a ver ao longo da vida.
Há, nesse sentido, uma força existencial poderosa. Quando unimos olhar e memória, passamos a reconhecer sentidos mais profundos para nossa presença no mundo. A identidade deixa de ser apenas um dado biográfico e passa a ser uma construção viva, continuamente reinterpretada pela consciência. Ver além do visível é também reencontrar, nas experiências vividas, as raízes que sustentam nossos valores e a direção de nossos passos.
Nessa mesma direção, o pensamento de Davi Kopenawa, em seu livro “A Queda do Céu”, amplia essa compreensão ao nos lembrar de que o olhar não se limita ao humano, mas alcança a própria vida da natureza. Em suas palavras: “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor”.
Ao afirmar que “a floresta está viva” e que sua destruição compromete o equilíbrio do mundo, ele nos convoca a perceber que existir é também cuidar. Assim, como a memória sustenta nossa identidade, o reconhecimento da vida ao nosso redor sustenta nossa responsabilidade, fazendo do olhar um gesto consciente que preserva, respeita e protege aquilo que nos mantém vivos.
Por fim, nesta quinta parte, procurei sustentar que a Filosofia do Olhar é também uma filosofia da memória e do pertencimento. Ela nos ensina que a profundidade do ver está intimamente ligada à profundidade do ser, pois aquilo que enxergamos carrega as marcas de quem fomos, de onde viemos e do que aprendemos a valorizar. Ou seja, em tempos de dispersão e perda de referências, talvez aprender a ver profundamente seja, antes de tudo, um gesto de reconexão, com a natureza, com o sagrado e, sobretudo, com aquilo que nos constitui como seres humanos.





