Gripe em 2026: por que a vacinação anual é essencial e como desmentir mitos sobre a imunização

As estações mais frias do ano são tradicionalmente marcadas pelo aumento dos casos de gripe, infecção causada pelo vírus influenza. A sazonalidade está relacionada ao clima mais seco e a mudanças de comportamento típicas dos meses frios, como a maior permanência em ambientes fechados e pouco ventilados, o que favorece a transmissão. Entre o fim de março e o início de abril, o Brasil registrou elevação na incidência da doença. O boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz, indica crescimento dos casos de influenza A, com maior impacto na região Centro-Sul. Até 4 de abril, mais de 31 mil casos de síndrome respiratória aguda grave já foram notificados em 2026, com mais de 13 mil confirmados laboratorialmente para vírus respiratórios, incluindo influenza.

A médica alergista e imunologista Cristina Maria Kokron alerta que “a gripe pode evoluir com febre mais alta e complicações, incluindo infecções bacterianas como sinusite, otite e pneumonia com necessidade de internação, exacerbação de doenças crônicas, evolução para síndrome respiratória aguda grave e óbito, especialmente em grupos vulneráveis”.

Por que a vacinação deve ser anual

O vírus influenza é um dos agentes infecciosos mais antigos conhecidos pela humanidade. Amplamente disseminado, já provocou grandes epidemias, como a Gripe Russa (1889), a Gripe Espanhola (1918) e, mais recentemente, a pandemia de H1N1 (2009). Uma das principais características do influenza é sua alta capacidade de mutação, que ocorre por dois mecanismos: pequenas alterações genéticas durante a replicação viral e rearranjos mais amplos quando diferentes variantes infectam a mesma célula.

Essas mudanças fazem com que o sistema imunológico perca, ao longo do tempo, a capacidade de reconhecer o vírus com eficiência, mesmo em pessoas que já tiveram gripe ou foram vacinadas anteriormente. Daí por que a proteção não é duradoura. A vacina contra a gripe é reformulada todos os anos justamente para acompanhar essas transformações. Uma rede global de vigilância monitora a circulação e a evolução das cepas e, com base nesses dados, a Organização Mundial da Saúde define quais variantes devem compor as vacinas de cada temporada.

Nos últimos meses, uma variante conhecida como gripe K — um subclado do vírus influenza A (H3N2) — tem chamado a atenção de autoridades de saúde em diferentes países. O aumento de infecções associado a esse subtipo acendeu um alerta global, e ele foi identificado no Brasil pela primeira vez no fim de 2025. No início de abril, o Ministério da Saúde informou ter intensificado a vigilância epidemiológica para monitorar a circulação do vírus e suas mutações.

Desmentindo o mito: a vacina causa gripe?

Circulam com frequência boatos de que a vacina contra a gripe poderia provocar a doença ou aumentar o risco de infecção. Isso não é verdade: o imunizante é produzido com vírus inativados e fragmentados, o que o torna incapaz de causar gripe. O pediatra Alfredo Elias Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein, detalha: “As doses para influenza disponíveis no Brasil não têm vírus vivo, ou seja, não têm o RNA, somente uma fração.”

Sintomas gripais após a vacinação podem ser causados por outros agentes infecciosos. “Nesta época do ano, circulam diversos vírus com quadros parecidos aos de gripe, que podem ser confundidos no dia a dia. Em geral, o que pode acontecer são casos de resfriado causados por outro grupo de vírus, chamado rinovírus, cujos sintomas são mais leves, como nariz escorrendo, tosse, dorzinha, febre baixa e mal-estar”, pontua Gilio.

Os efeitos adversos mais comuns da vacina são leves e passageiros, como dor, vermelhidão e endurecimento no local da aplicação, geralmente com melhora em até 48 horas. Reações menos frequentes incluem febre, mal-estar e dor muscular.

Quem pode se vacinar pelo SUS

A campanha nacional de vacinação segue até 30 de maio e é direcionada a grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde: crianças de 6 meses a menores de 6 anos, idosos com 60 anos ou mais, gestantes, puérperas, povos indígenas, quilombolas e pessoas em situação de rua. Também estão incluídas pessoas com maior risco de exposição ao vírus ou de agravamento da doença.

Profissionais considerados essenciais, como trabalhadores da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, salvamento e das Forças Armadas, também fazem parte do público-alvo, assim como caminhoneiros, trabalhadores do transporte coletivo, portuários e funcionários dos Correios. A estratégia contempla ainda indivíduos privados de liberdade, jovens em medidas socioeducativas e pessoas com deficiência permanente ou doenças crônicas, independentemente da idade.

A vacina contra a gripe ofertada pelo SUS é produzida pelo Instituto Butantan e é formulada na versão trivalente — com três cepas do vírus consideradas predominantes em circulação no mundo. Cerca de 80 milhões de doses são enviadas ao Ministério da Saúde, responsável pela distribuição aos estados e municípios. O imunizante também está disponível na rede privada, com preços que variam entre R$ 75 e R$ 230, sendo a versão mais comum a quadrivalente, que inclui uma cepa adicional do vírus influenza B. Tanto a vacina oferecida pelo SUS quanto a da rede privada são eficazes na prevenção de casos graves.

Com informações de Metrópoles

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