
A campanha do governo da Rússia para recrutar estudantes universitários e de escolas técnicas para unidades de drones já registra as primeiras mortes confirmadas na guerra da Ucrânia. O programa, lançado no início de 2026, apresenta essas tropas como um setor de elite, tecnológico e relativamente mais seguro do que a infantaria convencional.
Um dos casos é o de Valery Averin, de 23 anos, que morreu em abril após concluir treinamento como operador de drones.
“Ele estudou sobre drones por três meses — e, mesmo assim, o lançaram em um ataque frontal, direto para o moedor de carne”, afirmou Oksana Afanasyeva, mãe adotiva do jovem.
Criado em um orfanato no leste da Sibéria até ser adotado aos 11 anos, Averin cursava o último ano de uma escola técnica na Buriácia quando assinou contrato com o Exército russo. Inicialmente, disse à família que viajaria para trabalhar em uma empresa de comércio eletrônico.
Dias depois, revelou que havia sido treinado como operador de drones. Antes de seguir para uma área sem comunicação, tranquilizou a mãe.
“Ele me disse: ‘Nada vai acontecer comigo, vai ficar tudo bem’.”
Uma semana depois, em 8 de abril, a família recebeu a notícia de que o jovem havia morrido em um ataque de morteiro próximo a Luhansk, no leste da Ucrânia.
Outros estudantes tiveram destino semelhante. Vladislav Gorbunov, de 18 anos, morreu quatro meses após assinar contrato militar. Já Rakhim Abdullin, que buscava formação como soldador, alistou-se logo após completar 18 anos acreditando que a função de operador de drones seria mais segura.
“Mas, quando ele chegou lá, viu que não era nada seguro”, afirmou sua mãe, Elena Abdullin.
Segundo ela, o filho morreu em março, poucas semanas após iniciar o serviço militar.
Recrutamento cresce, enquanto guerra amplia número de baixas
De acordo com levantamento da BBC News Rússia, em parceria com o Mediazona e voluntários, já foram confirmadas as mortes de 230.407 militares russos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia. Especialistas estimam que os registros públicos representem entre 45% e 55% do total de óbitos, o que colocaria o número real entre 417 mil e 509,5 mil mortos.
A campanha de recrutamento foi direcionada principalmente a estudantes com dificuldades acadêmicas ou que cogitavam interromper os estudos. Em troca, eram oferecidos contratos de um ano, altos salários, treinamento em tecnologia militar e benefícios acadêmicos.
Segundo a BBC News Rússia, atividades de recrutamento foram identificadas em pelo menos 95 universidades e faculdades até fevereiro, número que posteriormente chegou a quase 270 instituições, segundo a publicação estudantil Groza.
Apesar da promessa de atuação em unidades de drones, advogados e organizações de direitos humanos alertam que os contratos podem ser prorrogados por tempo indeterminado devido ao decreto de mobilização parcial em vigor desde 2022. Além disso, cabe ao Ministério da Defesa decidir a função final de cada recruta, que pode ser transferido para outras unidades de combate.
Outro argumento utilizado na campanha é que operadores de drones permaneceriam afastados da linha de frente. No entanto, esses militares se tornaram alvos prioritários no conflito. Levantamento da BBC News Rússia aponta que pelo menos 920 operadores de drones russos tiveram as mortes confirmadas desde o início da guerra, número considerado inferior ao total real.
A investigação também encontrou relatos de pressão sobre estudantes em algumas instituições de ensino. Há registros de dirigentes incentivando o alistamento e denúncias de metas de recrutamento impostas a universidades, embora algumas instituições neguem qualquer participação obrigatória no processo.
Para a mãe adotiva de Valery Averin, o jovem jamais exerceu a função técnica que imaginava desempenhar.
“Ele dizia que nada aconteceria com ele”, relembrou.
Com informações de BBC Brasil







