O ministro amazonense Mauro Campbell Marques se emocionou e chorou ao se despedir da Corregedoria Nacional de Justiça, na noite desta quarta-feira (12), durante a conferência magna de abertura do XXI Encontro do Conselho de Presidentes dos Tribunais de Justiça Estaduais e Militares do Brasil (Consepre), no Teatro Amazonas, em Manaus.

Homenageado pela cúpula do Judiciário em sua terra natal, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) apresentou um balanço dos dois anos em que esteve à frente da Corregedoria Nacional. Em diferentes momentos da conferência, que durou quase uma hora, Campbell precisou interromper a fala, respirar fundo e conter as lágrimas.

A emoção ganhou força quando o ministro deixou os números e resultados administrativos de lado para agradecer às pessoas que estiveram ao seu lado durante a gestão, entre integrantes da equipe, magistrados, servidores e familiares.

“Há um preço pessoal que quase nunca aparece nos relatórios, nas estatísticas e nos atos administrativos. Mas ele existe, é real e muitas vezes é pago silenciosamente por nossas famílias”, afirmou Campbell, com a voz embargada.

A despedida ocorre às vésperas de uma nova etapa na trajetória do magistrado. Após deixar a Corregedoria Nacional de Justiça, Mauro Campbell assumirá, na próxima semana, a vice-presidência do STJ.

“Judiciário precisa reconhecer-se como continente”

Além do tom pessoal da despedida, Campbell aproveitou a conferência para apresentar sua visão sobre o futuro do Judiciário. O ministro comparou os tribunais brasileiros a um arquipélago e defendeu maior integração nacional sem que as particularidades regionais e a autonomia das Cortes sejam eliminadas.

“O Judiciário brasileiro é um arquipélago que precisa progressivamente reconhecer-se como continente”, resumiu.

Para Campbell, as transformações do sistema de Justiça não podem ser construídas exclusivamente em Brasília. Políticas e normas formuladas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), segundo ele, dependem diretamente da atuação dos tribunais, magistrados e servidores responsáveis por colocá-las em prática nos estados.

O ministro também defendeu que autonomia administrativa não seja confundida com isolamento. A ideia, conforme explicou, não é tornar os tribunais iguais, mas estabelecer critérios equivalentes para situações semelhantes, aumentar a transparência e permitir o compartilhamento de boas práticas.

Campbell destaca combate ao nepotismo

Ao fazer o balanço de sua gestão, Mauro Campbell informou que a Corregedoria Nacional realizou 27 inspeções pelo País durante os dois anos de sua administração.

Segundo ele, as inspeções não devem ter apenas caráter fiscalizador ou servir para identificar problemas, mas precisam ajudar a compreender as diferentes realidades dos tribunais e transformar o controle em ferramenta de aperfeiçoamento institucional.

Campbell apontou o combate ao nepotismo como uma das prioridades de sua passagem pelo órgão.

“A Justiça não pode ser espaço para privilégios de família, favorecimentos pessoais ou formas, ainda que disfarçadas, de apropriação privada daquilo que é público”, declarou.

“Combater o nepotismo não é perseguir pessoas, é proteger instituições”, acrescentou.

Mais de 225 mil pedidos de certidões

Entre os resultados apresentados pelo ministro está a Semana Nacional do Registro Civil, que recebeu mais de 225 mil solicitações de certidões e resultou na emissão de aproximadamente 120 mil documentos durante a mobilização deste ano.

Campbell também citou o programa Solo Seguro, voltado à regularização fundiária, e medidas de modernização dos registros públicos.

Para o corregedor, mais importante do que os números apresentados é o impacto das iniciativas sobre pessoas que passaram a contar com documentação, segurança jurídica e acesso a direitos básicos de cidadania.

Corregedoria analisou 300 mil planilhas

Outro desafio enfrentado durante a gestão, segundo Campbell, foi a tentativa de estabelecer critérios nacionais relacionados às remunerações e aos passivos funcionais da magistratura.

O trabalho exigiu a análise de aproximadamente 300 mil planilhas, envolvendo magistrados da ativa, aposentados e pensionistas.

“Enquanto cada tribunal está olhando para sua própria realidade, nós estamos olhando para todos os tribunais brasileiros ao mesmo tempo”, afirmou.

“Por mais respeitáveis que sejam as peculiaridades de cada ilha, precisamos enxergar o arquipélago inteiro”, completou.

Campbell sustentou que a definição de critérios nacionais não representa perda de autonomia dos tribunais. Para ele, mecanismos como contracheque único e padronização das análises contribuem para ampliar a transparência, permitir comparações e aumentar a segurança jurídica.

Homenagem em sua terra natal

A noite também foi marcada por uma homenagem prestada a Mauro Campbell pelo corregedor-geral de Justiça do Amazonas, desembargador José Hamilton Saraiva dos Santos, em reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo ministro à frente da Corregedoria Nacional.

“Vencer as armadilhas do ego é virtude dos mais nobres estadistas e vossa excelência é um exemplo disso. O ministro Mauro Campbell foi um farol para as Corregedorias de Justiça”, afirmou Saraiva.

“Em nome do Poder Judiciário do Amazonas, registro o mais profundo e afetuoso agradecimento, e que o sacerdote da Justiça continue guiando a sua caminhada”, acrescentou.

Consepre bate recorde de inscritos em Manaus

A solenidade no Teatro Amazonas abriu oficialmente o XXI Consepre, que segue até sexta-feira (14), tendo o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) como anfitrião.

O presidente do TJAM, desembargador Jomar Ricardo Saunders Fernandes, destacou que a edição realizada em Manaus alcançou o maior número de inscritos da história do encontro.

“Manaus fica longe. Chegar aqui, para a maioria, representou longas horas de voo, e mesmo assim vocês vieram, em número recorde. Isso não é apenas um dado de inscrição. Isso é escolha”, declarou Jomar.

Segundo o presidente, o encontro discutirá questões que estão no centro das transformações do Judiciário, entre elas acesso à Justiça, Inteligência Artificial e novas tecnologias.

A programação desta quinta e sexta-feira será realizada no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques e também terá debates sobre violência doméstica contra meninas e mulheres, proteção à infância, ferramentas tecnológicas e boas práticas adotadas pelos tribunais.

A cerimônia de abertura foi conduzida pelo presidente do Consepre e do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), desembargador Heráclito Vieira de Souza Neto, e por Jomar Fernandes.

Também participaram da solenidade o vice-presidente do TJAM, desembargador Airton Luís Corrêa Gentil; o corregedor-geral José Hamilton Saraiva dos Santos; o governador do Amazonas, Roberto Cidade; o prefeito de Manaus, Renato Júnior; e o presidente nacional da OAB, Beto Simonetti.

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