Diálogos extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que a CEO do portal Metrópoles, Lilian Tahan, consultava o banqueiro antes de publicar reportagens relacionadas à instituição financeira. Segundo as conversas, Vorcaro sugeria mudanças em textos, propunha abordagens favoráveis aos seus interesses e chegou a impedir a publicação de uma reportagem.

As mensagens mostram que Tahan mantinha contato direto com o empresário, encaminhava versões preliminares de matérias para avaliação e intermediava reuniões com o proprietário do Metrópoles, o ex-senador Luiz Estevão. Procurada para comentar o conteúdo das conversas, a executiva não se manifestou.

Os registros vieram à tona em meio às investigações envolvendo Vorcaro, que é suspeito de participação em um esquema de fraude contra o sistema financeiro estimado em R$ 12 bilhões. No mesmo aparelho celular, a Polícia Federal também encontrou conversas com Frederic Kachar, então CEO da Editora Globo, demitido nesta quinta-feira (15), conforme informações divulgadas sobre o caso.

Banqueiro sugeria mudanças em reportagens

Em 2 de abril de 2025, Vorcaro contestou informações sobre uma suposta proposta de R$ 1 feita pelo BTG Pactual para adquirir ativos do Banco Master. Ao receber do banqueiro um desmentido, Tahan respondeu: “Tiramos”, indicando que a informação seria retirada.

Na sequência, Vorcaro orientou a abordagem que considerava adequada para a publicação. Ele pediu que o texto se limitasse a desmentir a existência da proposta, sem transmitir a impressão de que o banco não tinha interesse na negociação.

A jornalista concordou e, horas depois, enviou o link da reportagem publicada. Na mensagem, também se colocou à disposição para corrigir eventuais informações, afirmando que não publicaria novos conteúdos sem conversar com ele.

O mesmo procedimento aparece em conversas de 10 de abril daquele ano. Na ocasião, Tahan encaminhou a Vorcaro um rascunho de reportagem sobre os números dos balanços do Banco de Brasília (BRB) e do Master.

O banqueiro sugeriu que a carteira de crédito do Master fosse apresentada com valores maiores, incluindo carteiras de fundos. Para isso, informou um montante de R$ 52 bilhões. Mais tarde, a executiva enviou a ele o link da matéria publicada com a alteração.

No dia seguinte, a CEO voltou a compartilhar previamente um texto, desta vez sobre uma reunião entre Vorcaro e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Na conversa, perguntou se havia observações e afirmou que faria alterações mesmo depois da publicação, caso fosse necessário.

Menção a empresa foi retirada de reportagem

As mensagens também apontam interferências na seleção de informações incluídas nas matérias. Em 27 de maio de 2025, Tahan enviou ao banqueiro uma versão preliminar de um texto sobre a compra, pelo BTG Pactual, de ativos relacionados ao Master.

A reportagem mencionava empresas como Hotel Fasano, Light, Pão de Açúcar e Hapvida. Vorcaro pediu que a referência à Hapvida fosse retirada, e a jornalista concordou. A matéria foi publicada sem a menção à empresa.

Em outra conversa, de 28 de julho de 2025, o banqueiro sugeriu mudanças no título de uma reportagem sobre documentos apresentados pelo Master ao Banco Central para viabilizar a operação de venda ao BRB.

Vorcaro recomendou substituir uma referência à etapa final da compra por uma abordagem que destacasse a expectativa de aprovação da operação pelo Banco Central nos dias seguintes. Tahan aceitou a sugestão e encaminhou a nova versão, aprovada pelo empresário.

Posteriormente, o Banco Central vetou a operação, em setembro de 2025, e o Banco Master foi liquidado em novembro daquele ano.

Vorcaro pediu redução de espaço para crítico da operação

As conversas também indicam que o banqueiro procurou interferir na cobertura de um de seus críticos. Na época, Ricardo Cappelli, do PSB, era pré-candidato ao governo do Distrito Federal e questionava a negociação entre o Banco Master e o BRB, além de defender medidas de intervenção na instituição financeira.

Em uma mensagem enviada a Tahan, Vorcaro pediu que o espaço destinado a Cappelli fosse reduzido temporariamente. “Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, escreveu. A CEO respondeu que atenderia à solicitação.

O episódio reforça os indícios de que o banqueiro buscava influenciar não apenas o conteúdo das reportagens, mas também a visibilidade concedida a pessoas que criticavam seus interesses.

Reportagem sobre Oncoclínicas não foi publicada

Um dos casos mais explícitos ocorreu em 22 de outubro de 2025. Naquela data, Tahan encaminhou a Vorcaro o rascunho de uma reportagem intitulada “Repactuação entre Oncoclínicas e Master permite que CDBs sejam convertidos em ações”.

A executiva perguntou se a publicação causaria algum incômodo ao banqueiro. Vorcaro respondeu que a informação estava errada e criticou a atuação de representantes da Oncoclínicas.

Após a resposta, Tahan decidiu não publicar o conteúdo e escreveu: “Deixar quieto aqui”. A reportagem não chegou a ser publicada.

Os diálogos obtidos pela Polícia Federal expõem a proximidade entre o banqueiro e a direção do portal, além de levantarem questionamentos sobre a independência editorial na cobertura de assuntos relacionados ao Banco Master.

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