
Os brasileiros podem enfrentar novos aumentos nos preços dos alimentos ao longo do segundo semestre de 2026. A avaliação é da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), que aponta o conflito no Oriente Médio e a previsão de um novo episódio de El Niño como os principais fatores que devem pressionar os custos da cadeia de abastecimento nos próximos meses.
Segundo o vice-presidente da Abras, Marcio Milan, a combinação entre a instabilidade internacional e as condições climáticas desfavoráveis pode elevar o preço de diversos produtos essenciais consumidos pelas famílias brasileiras.
Um dos fatores de preocupação é a guerra envolvendo Estados Unidos e Irã, que mantém o mercado internacional de petróleo em alerta. Desde o início do conflito, as cotações do barril chegaram a ultrapassar os US$ 120, e seguem apresentando forte volatilidade devido às incertezas sobre a segurança no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo.
Nesta quarta-feira (8), os contratos futuros do petróleo voltaram a subir após novos episódios de tensão entre os dois países, reforçando o cenário de instabilidade. A elevação dos combustíveis impacta diretamente os custos de transporte, produção e distribuição de mercadorias, refletindo no preço final dos alimentos.
Além do cenário geopolítico, a Abras monitora com atenção a possibilidade de um novo episódio de El Niño no segundo semestre. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, costuma provocar alterações no regime de chuvas e de temperaturas em diversas regiões do planeta, afetando a produção agrícola.
A previsão é que o evento climático apresente intensidade de aproximadamente 63%, podendo figurar entre os mais fortes registrados desde a década de 1950. Caso o cenário se confirme, culturas agrícolas poderão sofrer perdas de produtividade, reduzindo a oferta de alimentos e pressionando ainda mais os preços.
De acordo com Marcio Milan, alguns produtos já começam a refletir os efeitos das condições climáticas adversas.
“Caso se concretize, o El Niño deve elevar os preços de determinados produtos, como já estamos vendo com a batata, o tomate e a cebola”, afirmou.
Dados do indicador AbrasMercado mostram que a cesta de consumo composta por 35 produtos básicos registrou alta de 2,16% em maio, elevando seu valor médio para R$ 854,91. No acumulado de 2026, o aumento já chega a 6,82%.
Entre os alimentos que mais subiram de preço no mês, o feijão liderou as altas, com avanço de 6,44%, acumulando valorização superior a 41% no ano. O arroz também apresentou aumento de 2,16%, enquanto o leite longa vida registrou alta de 0,77%.
No setor de hortifrúti, os reajustes foram ainda mais expressivos. A batata subiu 44,69% em maio, o tomate avançou 20,62% e a cebola registrou alta de 16,80%. No acumulado do ano, esses produtos já apresentam aumentos de 75,84%, 86,17% e 48,88%, respectivamente.
Regionalmente, o Nordeste registrou a maior alta mensal dos preços, com avanço de 2,79%, embora continue apresentando a cesta básica mais barata do país, avaliada em R$ 772,51. Já a região Norte manteve o maior custo médio entre todas as regiões brasileiras, com a cesta chegando a R$ 939,79.
Mesmo diante da inflação dos alimentos, o consumo das famílias brasileiras permaneceu em crescimento. Em maio, o volume consumido foi 3,93% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Segundo a Abras, o desempenho foi impulsionado por fatores como o pagamento da restituição do Imposto de Renda, a antecipação do 13º salário para parte dos beneficiários, os repasses do Bolsa Família, do PIS/Pasep e a quitação de valores atrasados do INSS, que ampliaram temporariamente a renda disponível de milhões de brasileiros.
Outro fator que contribuiu para o aumento das vendas foi o Dia das Mães. De acordo com a entidade, a semana da data comemorativa registrou crescimento de aproximadamente 9,5% no consumo em relação ao mesmo período do ano passado.
Para a Abras, o cenário exige atenção nos próximos meses, já que a combinação entre custos logísticos elevados, instabilidade internacional e possíveis perdas na produção agrícola pode manter a pressão sobre os preços dos alimentos até o fim do ano.







