
Joilson Souza
O chão da escola, fincado no coração da nossa realidade amazônica, é um território de travessias profundas, mas a maior distância que se pode percorrer no universo da educação não se mede na largura do rio; mede-se no espaço silencioso que separa o profissional que apenas estar professor daquele que escolheu ser professor. No balanço dessas águas, a rotina escolar se encarrega de revelar quem carrega o ofício apenas como um fardo burocrático no bolso e quem o traz cravado no peito como um compromisso com a vida.
Estar professor é habitar a superfície de uma profissão que exige profundidade, vivendo o cotidiano como quem espera o próximo banzeiro passar, sem criar raízes na beira do barranco. Para quem apenas está, o relógio é o senhor absoluto do tempo, e as carteiras cheias são um peso. Esse olhar, anestesiado pela conveniência, torce pela chegada do temporal do inverno amazônico, não pela beleza mística das águas que lavam a floresta, mas pela esperança egoísta de que a tempestade impeça a rabeta de encostar no porto ou o ônibus de vencer o ramal, esvaziando a sala de aula e antecipando o descanso. O feriado prolongado é o seu único oásis, e a escola, um balcão de trocas frias onde se permutam horas de vida pelo mísero sustento. Quem habita essa margem passa alheio pela comunidade; não conhece a rotina social que molda o rosto de quem senta à sua frente, não sabe qual estudante passou a noite ajudando os pais na prensa da casa de farinha, quem cruzou o rio com o estômago roncando de fome ou quem traz na alma a cicatriz da vulnerabilidade. O aluno, ali, torna-se um número invisível em um diário de classe.
Mas a correnteza muda de tom quando o ofício encontra quem escolheu ser professor. Aqui, a docência deixa de ser um cargo e passa a ser um estado de espírito, um pacto de coragem e poesia cabocla que não ignora a justa e necessária valorização financeira, mas recusa-se terminantemente a ser limitada por ela. Quem é professor traz os olhos treinados para ler o mundo antes mesmo de ensinar a ler as letras. Conhece o nome, o sotaque e o silêncio de cada um; decora o brilho da descoberta e acolhe a dor do cansaço. Para o verdadeiro mestre, o dia de chuva torrencial não é um pretexto para o abandono, mas um chamado ao acolhimento. Se apenas dois ou três meninos conseguirem vencer a enxurrada e pisar na escola, eles encontrarão o mesmo sorriso, o mesmo calor e a mesma dignidade de uma sala cheia, porque quem é professor sabe que uma única mente despertada tem a força de mudar o curso de uma história inteira.
A diferença crucial, contudo, reside na intencionalidade do olhar e na direção do afeto. Enquanto quem está professor conta as horas para o barco partir e deixar a comunidade para trás, quem é professor ajuda o aluno a talhar a própria canoa para navegar o mundo. A nossa gente não carece de técnicos burocráticos que ocupam cadeiras esperando o tempo passar; o nosso povo precisa de semeadores que entendam que a educação é como a vitória-régia, que precisa romper a escuridão do fundo do rio para florescer, soberana, na superfície da vida. Que saibamos, pois, honrar a vocação, escolhendo a cada amanhecer a profundidade de ser, e não a leveza apática de apenas estar.





