Ninguém falava alto na sexta-feira santa. Nem brigava, nem brincava, porque o ambiente era mesmo de velório. O menino que descumprisse essa regra não escrita podia contar que o que era seu ficava guardado até o sábado de aleluia, quando a peia cantaria com os necessários juros. Os católicos, como meu pai e minha mãe, cumpriam rigorosamente os preceitos, mais acentuados ainda na Manaus da minha infância, quando a igreja romana exercia domínio absoluto e incontestado.

A refeição, já frugal no comum, trazia conotações de abstinência e era servida em mesa nua, vez que a toalha, por modesta que fosse, poderia gerar ideias profanas de banquete. O peixe era assim comido em silêncio de monastério, faltando apenas o tom monocórdio do canto gregoriano.

Mas a música sacra não faltava na igrejinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ali na esquina das ruas Leonardo Malcher e Luís Antony. Lá fui iniciado em todos os mistérios do catecismo, ouvindo, desde tenra idade, que “deus é um espírito perfeitíssimo criador do céu e da terra”. Estava no primeiro manual. E era crendo nisso que ajudava à missa, no livro ou no sino, ou, ainda, segurando a patena na hora em que se distribuía a comunhão.

Na sexta sagrada, depois das três da tarde, a cerimônia da via sacra era imprescindível. Já então os acólitos estávamos proibidos de tocar o sino, substituído a caráter por matraca metálica a soar como o grasnar de uma rasga mortalha, ave agourenta que, no dizer de minha madrinha Antonica, era presença obrigatória no telhado das residências onde houvesse um candidato bem cotado a defunto.

À noite, serravam-se as velhas. Que irreverência! Depois de entoar algo mais ou menos assim: “ai, dona Coló, vai entregar sua alma a deus e o corpo à cova fria”, o grupo de “irresponsáveis” atacava um pedaço de madeira com um serrote, produzindo um som que, no silêncio noturno, seria capaz de arrepiar uma estátua equestre. De vez em quando a briga era inevitável pela reação dos familiares da “serrada”.

Tudo mudava no sábado com a malhação de judas. Pendurados nos postes, com os respectivos cartazes, os mamulengos eram de lá descidos e não havia curumim que permanecesse alheio à ingente tarefa de destruí-los à custa de muita pancada distribuída com paus ou canos de ferro.

 A culminância era a missa do domingo. Retirada a cobertura lutuosa das imagens dos santos, a igrejinha parecia rejuvenescer de júbilo, com padre Leão, em paramentos de gala, rezando a missa cantada. Ao celebrante, respondiam as vozes de um belíssimo coro, comandado pelas irmãs Feitosa, sempre gentis, sempre fervorosas.

Não sei como é hoje. Mas a verdade, mesmo, é que mentiria se dissesse que não sinto saudade.

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