
Confrontos entre tropas do governo federal da Somália e forças de oposição deixaram dezenas de mortos nesta segunda-feira (17), na cidade de Baidoa, capital administrativa do estado do Sudoeste do país. Segundo o Ministério da Defesa somali, os combates ocorreram em meio à crescente tensão política e militar na região. Moradores relataram à Reuters que a violência foi uma das mais intensas registradas na cidade desde março.
Os confrontos ocorreram em diferentes pontos do centro de Baidoa, uma das cidades mais populosas da Somália. Moradores afirmaram ter presenciado mortes entre civis e integrantes das forças envolvidas. Farah Ibrahim, ouvido pela Reuters, disse ter visto 10 pessoas mortas, sendo quatro civis e seis soldados dos dois lados.
A nova onda de violência agrava a situação humanitária em uma região que já abriga centenas de milhares de pessoas deslocadas por conflitos. A população enfrenta dificuldades para ter acesso a alimentos, serviços de saúde e condições básicas de segurança.
Um levantamento realizado pela organização Médicos Sem Fronteiras em julho apontou que uma em cada quatro crianças que vivem nos locais destinados à população deslocada apresenta desnutrição severa. O cenário aumenta a preocupação com os efeitos dos novos confrontos sobre famílias que já vivem em condições precárias.
A crise em Baidoa também está relacionada a uma disputa política entre o governo federal, sediado na capital Mogadíscio, e as administrações regionais. Desde 2024, o governo central vem promovendo mudanças destinadas a ampliar seus poderes sobre os estados que compõem a federação somali.
Entre as alterações estão mudanças constitucionais que ampliam a concentração de poderes no Executivo, modificam o calendário eleitoral e aumentam a influência do governo federal sobre as eleições estaduais. Também houve uma extensão do mandato presidencial.
As medidas provocaram resistência entre lideranças regionais. Em março, Abdiaziz Hassan Mohamed Laftagareen, então presidente do Estado do Sudoeste, onde está localizada Baidoa, rompeu politicamente com o governo federal. Na ocasião, ele deixou o cargo e forças enviadas de Mogadíscio assumiram o controle da cidade.
A tomada de Baidoa, porém, não encerrou a resistência. Grupos armados que permaneceram leais ao antigo governante passaram a enfrentar as forças federais, aumentando a instabilidade na região e criando uma nova frente de conflito no país.
A disputa entre o governo central e as administrações regionais também afeta outras partes da Somália. O país enfrenta dificuldades para estabelecer um equilíbrio entre a autoridade federal e os governos estaduais, em um contexto marcado por décadas de instabilidade política e conflitos armados.
A situação é ainda mais complexa devido à atuação do Al-Shabaab, grupo fundamentalista islâmico ligado à rede terrorista Al-Qaeda. A organização mantém uma insurgência armada contra o governo somali há cerca de duas décadas.
O grupo busca derrubar o governo federal e estabelecer no país sua própria interpretação rigorosa da lei islâmica. A atuação do Al-Shabaab representa uma das principais ameaças à segurança da Somália e dificulta os esforços das autoridades para consolidar o controle sobre diferentes regiões.
Com os novos confrontos em Baidoa, moradores e organizações humanitárias temem que o aumento da violência provoque novos deslocamentos e agrave a situação de milhares de pessoas que já dependem de assistência para sobreviver. As autoridades ainda avaliam a extensão dos danos provocados pelos combates.







