
O que antes exigia uma viagem de até três dias pelos rios da Amazônia para uma simples consulta médica agora pode ser resolvido a poucos minutos de casa. A implantação de dois novos pontos de atendimento do projeto SUS na Floresta, em Carauari, no interior do Amazonas, está transformando o acesso à saúde de milhares de ribeirinhos ao levar consultas presenciais, telemedicina, pré-natal, vacinação e atendimento de urgência para comunidades isoladas.
A mudança já faz diferença na vida da agricultora Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses do quinto filho. Até pouco tempo, ela precisava enfrentar uma longa viagem de rabeta até a sede de Carauari para realizar o pré-natal, percurso que poderia durar entre dois e três dias, dependendo do nível do Rio Juruá.
Com a inauguração do ponto de atendimento na comunidade de Campina, o cenário mudou completamente.
“Agora é só de uma praia”, comemorou a moradora, que passou a fazer o acompanhamento da gestação mais perto de casa e aproveitou a consulta para levar também a filha de seis anos ao médico.
Saúde chega onde antes só havia isolamento
A realidade enfrentada por Aldeniza é compartilhada por milhares de moradores das comunidades ribeirinhas espalhadas pela Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, onde o acesso aos serviços públicos depende exclusivamente dos rios.
Em muitos casos, o custo da viagem também pesa no orçamento das famílias. A ribeirinha Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade Bauana, conta que gastava centenas de reais apenas com combustível para chegar até a cidade.
Com os novos polos de saúde, o deslocamento deixou de ser uma barreira para consultas médicas, vacinação, atendimento odontológico e acompanhamento de doenças crônicas.
Projeto integra atendimento presencial e telemedicina
Os novos pontos de atendimento funcionam dentro das bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e contam com consultórios, salas de triagem, consultório odontológico, internet via satélite e equipamentos de telemedicina.
O modelo permite que pacientes realizem consultas presenciais ou sejam atendidos remotamente por médicos que permanecem na sede do município.
Segundo o secretário municipal de Saúde de Carauari, Manoel Brito, cada unidade contará com enfermeiros e técnicos de enfermagem em regime de revezamento, além de atendimentos médicos e odontológicos programados.
Atendimentos já evitam remoções por ambulancha
Mesmo antes da inauguração oficial, os novos pontos começaram a atender moradores e já reduziram a necessidade de deslocamentos até a cidade.
Somente na unidade de Campina foram evitadas cinco remoções por ambulancha na primeira semana de funcionamento.
Entre os atendimentos está o do jovem Thiago Freitas Andrade, que machucou o pé ao pisar em uma tábua com pregos durante uma partida de futebol.
Após uma semana convivendo com dores intensas, ele conseguiu atendimento na própria comunidade.
Além dele, crianças com acidentes domésticos, pacientes gripados, gestantes, hipertensos e pessoas com infecção urinária passaram a receber assistência sem precisar viajar por horas ou dias.
Fortalecimento do SUS
O projeto não cria uma rede paralela de atendimento, mas reforça a estrutura já existente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Batizada de SUS na Floresta, a iniciativa é executada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, sob gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com apoio técnico da Prefeitura de Carauari e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.
Segundo o diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS, Guilherme Sylos, o objetivo é adaptar a atenção básica às peculiaridades da Amazônia.
“O SUS na Floresta busca fortalecer a Atenção Primária considerando os grandes deslocamentos, a sazonalidade dos rios, a baixa disponibilidade de profissionais e as características culturais desses territórios”, explicou.
Modelo nasceu durante a pandemia
O projeto começou a ser estruturado em 2020, durante a pandemia da Covid-19, quando muitas comunidades ficaram sem assistência médica por causa das dificuldades de deslocamento.
A proposta ganhou força ao mostrar que aproximar os serviços de saúde das comunidades reduz complicações clínicas, amplia a cobertura vacinal, fortalece o pré-natal e evita internações desnecessárias.
Atualmente, o programa conta com três unidades em funcionamento — uma em Eirunepé e duas em Carauari — e prevê a implantação de novos polos em Itapiranga, Novo Aripuanã e um alojamento de apoio para profissionais de saúde em Uarini.
Para os gestores, o projeto representa uma nova forma de fazer saúde pública na Amazônia, adaptando o SUS às distâncias, aos rios e à realidade das populações tradicionais.
Com informações da Agência Brasil. Reportagem de Elaine Patricia Cruz. A jornalista viajou a convite do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).







