Presidente dos EUA, Donald Trump • 27/02/2026REUTERS/Elizabeth Frantz

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou ao Pentágono uma redução significativa dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. A decisão ocorre justamente no início do Ulchi Freedom Shield, principal treinamento anual realizado pelas forças dos dois países.

Embora a medida possa ser interpretada como uma tentativa de reabrir o diálogo com a Coreia do Norte, a justificativa apresentada por Trump envolve outros fatores. O presidente afirmou que os exercícios são caros, que enviam uma mensagem equivocada ao líder norte-coreano, Kim Jong-un, e também criticou a Coreia do Sul por não ter apoiado os Estados Unidos em relação ao conflito com o Irã.

A combinação das justificativas levantou preocupações sobre o futuro da aliança entre Washington e Seul. A questão central não é necessariamente a redução dos exercícios, mas o que a decisão sinaliza aos aliados e aos adversários dos Estados Unidos.

Exercícios são parte da estratégia de defesa

A aliança militar entre Estados Unidos e Coreia do Sul foi estabelecida após a Guerra da Coreia e consolidada pelo tratado de defesa mútua de 1953. Desde então, o objetivo principal é garantir que Seul não enfrente sozinho uma eventual agressão.

Os exercícios conjuntos não funcionam apenas como demonstrações de força. Eles permitem que as forças dos dois países testem sistemas de comando, comunicação, logística e integração operacional, elementos considerados fundamentais em uma situação de conflito.

Uma redução pontual nos treinamentos não significa, por si só, o fim da aliança ou o abandono da Coreia do Sul. O tratado permanece vigente, assim como a presença militar norte-americana no país e décadas de cooperação entre as duas forças.

O principal receio surge caso a redução deixe de ser uma medida excepcional e passe a representar uma mudança permanente na natureza do compromisso militar de Washington com Seul.

Decisão ocorre em meio à ameaça norte-coreana

A mudança também acontece em um momento de preocupação com o avanço das capacidades nucleares e de mísseis da Coreia do Norte.

Poucos dias antes do início dos exercícios, Pyongyang voltou a realizar lançamentos de mísseis balísticos. O país também aprofundou sua cooperação militar com a Rússia nos últimos anos.

O Ministério da Defesa do Japão avalia que a Coreia do Norte já possui capacidade para atingir o território japonês com mísseis balísticos potencialmente equipados com ogivas nucleares. Para Tóquio, a ameaça representa um risco mais grave e iminente do que em períodos anteriores.

Por isso, os efeitos da decisão de Trump ultrapassam a Península Coreana.

Japão também acompanha decisão

O Japão possui uma aliança própria de defesa com os Estados Unidos e acompanha de perto qualquer mudança na credibilidade das garantias oferecidas por Washington.

Nos últimos anos, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul ampliaram a cooperação militar, principalmente em áreas como defesa antimísseis, compartilhamento de informações e exercícios conjuntos.

Desde 2023, os três países mantêm um sistema de compartilhamento contínuo de informações sobre lançamentos de mísseis norte-coreanos.

Nesse cenário, a preocupação não é necessariamente a possibilidade de os Estados Unidos abandonarem seus aliados de forma imediata. O risco está na possibilidade de que países parceiros passem a considerar os compromissos norte-americanos menos previsíveis.

Pressão por maior responsabilidade dos aliados

Trump há anos cobra que países aliados assumam uma parcela maior dos custos e das responsabilidades relacionadas à própria defesa. Japão e Coreia do Sul vêm ampliando seus investimentos militares e sua capacidade de atuação.

No entanto, incentivar maior participação dos aliados é diferente de gerar dúvidas sobre a disposição dos Estados Unidos de cumprir seus compromissos de segurança.

Uma eventual perda de confiança poderia estimular países aliados a buscar maior autonomia militar e até alimentar debates sobre novas estratégias de dissuasão.

A decisão de Trump, portanto, não significa que a aliança entre Washington e Seul esteja chegando ao fim. Mas pode alterar a percepção sobre sua credibilidade e previsibilidade, dois elementos fundamentais para qualquer sistema de defesa.

Em alianças militares, tratados, bases, soldados e armas são importantes. Mas a dissuasão também depende da expectativa de que os compromissos serão cumpridos quando uma crise surgir. Se essa certeza diminuir, tanto aliados quanto adversários poderão recalcular suas estratégias.

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