
O aumento dos confrontos entre facções criminosas no Equador tem provocado o deslocamento de milhares de famílias, que abandonam suas casas para escapar da violência. Segundo moradores e policiais, gangues passam a ocupar os imóveis deixados para trás, utilizando-os para atividades relacionadas ao tráfico de drogas ou para esconder vítimas de sequestro.
Uma das regiões mais afetadas é Nueva Prosperina, distrito de Guayaquil, cidade localizada na costa do país. No ano passado, uma disputa interna entre facções ligadas à gangue Los Tiguerones deixou 22 pessoas mortas na região.
De acordo com dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e da Defensoria Pública, mais de 300 mil pessoas deixaram suas casas no Equador nos últimos três anos. Entre os motivos estão ameaças de morte, extorsão, recrutamento forçado por grupos criminosos e assassinatos de familiares.
Organizações de defesa dos direitos humanos acreditam, porém, que o número real de pessoas deslocadas pode ser ainda maior.
Equador enfrenta avanço da violência
O país, que durante anos foi considerado relativamente seguro na América Latina, atualmente apresenta o terceiro maior nível de deslocamento interno da região, atrás apenas do Haiti e da Colômbia, segundo o Conselho Norueguês para Refugiados.
O avanço da violência está relacionado, entre outros fatores, ao papel crescente do Equador como rota internacional para o tráfico de drogas.
O presidente Daniel Noboa, que assumiu o cargo em 2023 com a promessa de combater a criminalidade, adotou medidas de segurança mais duras contra as organizações criminosas. No entanto, entidades de direitos humanos afirmam que a estratégia não conseguiu conter a violência e pode ter contribuído para a fragmentação das organizações.
Com a morte e a prisão de líderes criminosos, grupos anteriormente centralizados teriam se dividido em facções rivais, aumentando a disputa pelo controle de territórios.
O Equador registrou 9.216 mortes violentas no ano passado, segundo os dados citados na reportagem. A taxa chegou a 51 homicídios para cada 100 mil habitantes, aproximadamente oito vezes superior à registrada uma década antes.
O governo de Noboa, por outro lado, afirma que a estratégia de segurança vem enfraquecendo progressivamente as organizações criminosas. Segundo o Executivo, o número de mortes caiu 8% entre janeiro e julho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025.
Extorsão domina bairros controlados por gangues
Além dos confrontos armados, a extorsão se tornou uma das principais ferramentas de controle das comunidades. Segundo autoridades policiais e a Defensoria Pública, moradores de diferentes regiões são obrigados a pagar valores aos criminosos para continuar trabalhando ou vivendo nos bairros.
Em Nueva Prosperina, estimativas da polícia indicam que metade das famílias já sofreu algum tipo de extorsão.
“Uma mensagem no WhatsApp tem quase o mesmo impacto que uma bomba”, afirmou Francesco Volpi, do Conselho Norueguês para Refugiados, ao descrever o efeito das ameaças sobre os moradores.
Um comerciante de 45 anos relatou ter deixado Nueva Prosperina depois que seus filhos passaram a receber ameaças de morte e tentativas de recrutamento por parte de gangues. Ele também afirmou ter sofrido intimidações de pessoas que identificou como policiais.
O chefe da polícia de Nueva Prosperina, Gino Pillajo, disse que muitos casos não chegam às autoridades porque as vítimas têm medo de represálias.
Para tentar aumentar as denúncias, a polícia trabalha com lideranças comunitárias e instalou códigos QR em estabelecimentos comerciais, permitindo que moradores comuniquem casos de extorsão de maneira anônima.
Policiais também acompanham famílias que decidem deixar suas casas. A medida busca garantir a segurança dos moradores e ajudar as autoridades a identificar imóveis que ficaram abandonados.
Deslocamento atinge outras regiões
A crise não está concentrada apenas em Guayaquil. Comunidades indígenas Chachi, próximas à fronteira com a Colômbia, abandonaram temporariamente seus territórios devido a ameaças relacionadas à mineração ilegal, segundo a Defensoria Pública.
Na cidade de Babahoyo, na província de Los Ríos, comerciantes passaram a fechar seus estabelecimentos mais cedo como forma de proteção.
Já em Sucumbíos, na região amazônica do Equador, famílias estão deixando suas terras para evitar que grupos criminosos recrutem jovens das comunidades.
Os casos mostram que o deslocamento provocado pela violência atinge diferentes grupos sociais e regiões do país.
Falta de política específica dificulta assistência
Funcionários do governo ouvidos pela Reuters reconheceram a dimensão do problema, mas afirmaram não saber qual órgão deveria ser responsável pelo atendimento às pessoas que abandonam suas casas por causa da violência.
Segundo Billy Navarrete, presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos de Guayaquil, o deslocamento interno provocado pela violência não possui reconhecimento legal específico no Equador.
“Não existe reconhecimento legal do deslocamento interno forçado causado pela violência”, afirmou Navarrete, destacando que a falta de uma estrutura oficial dificulta o monitoramento, a proteção e a assistência às vítimas.
Muitas famílias acabam vivendo temporariamente na casa de parentes ou se mudam para outras cidades. Outras, porém, permanecem próximas das áreas controladas por criminosos por falta de dinheiro, ausência de apoio ou medo de perder os próprios bens.
Em Nueva Prosperina, moradores relatam que o medo impede até mesmo que as pessoas denunciem os criminosos.
“Temos que permanecer em silêncio. Somos cúmplices silenciosos. Não podemos dizer nada porque nossas vidas estão em risco”, relatou um morador da região.







