Lula (PT) lidera as estimativas de intenção de voto sobre Flávio Bolsonaro (PL) para 2026, em uma disputa que deve reeditar a polarização de quatro anos atrás.

Um estudo publicado na revista científica Nature Communications indica que brasileiros tendem a enxergar adversários políticos como mais radicais do que realmente são. A pesquisa, realizada durante o período eleitoral de 2022, sugere que essa percepção distorcida contribui para aumentar a polarização afetiva — conceito que mede o grau de antipatia entre grupos políticos.

O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford e da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ebape) e ouviu entre 2 mil e 3 mil brasileiros em diferentes etapas entre abril de 2022 e janeiro de 2023.

Os resultados mostraram que apoiadores de diferentes grupos políticos frequentemente superestimam posições consideradas mais controversas do campo oposto. Em um dos exemplos analisados, eleitores identificados com o bolsonarismo acreditavam que mais de 80% dos lulistas apoiavam a legalização do aborto no primeiro trimestre da gestação, enquanto o percentual real encontrado pela pesquisa era significativamente menor.

Situação semelhante ocorreu entre eleitores identificados com o lulismo. Muitos acreditavam que apenas uma pequena parcela dos bolsonaristas apoiava políticas de cotas para estudantes de baixa renda nas universidades, quando o apoio efetivo registrado pelo estudo era muito superior.

Segundo os pesquisadores, essa tendência de atribuir posições mais extremas ao grupo adversário fortalece a polarização afetiva, caracterizada pelo aumento da rejeição pessoal entre indivíduos que possuem visões políticas diferentes.

A pesquisa também mediu o grau de simpatia entre os grupos. Em média, os participantes atribuíam notas muito mais altas ao próprio grupo político do que aos adversários, evidenciando um forte distanciamento emocional entre os campos analisados.

Informação correta reduziu rejeição entre grupos políticos

Uma das principais conclusões do estudo surgiu a partir de um experimento realizado durante as entrevistas. Após estimarem as opiniões do grupo adversário sobre temas como aborto, desmatamento e políticas de cotas, os participantes recebiam os dados reais coletados pelos pesquisadores.

Ao perceberem que suas percepções não correspondiam à realidade, muitos entrevistados passaram a avaliar o grupo rival de maneira menos negativa. Os pesquisadores observaram uma redução da rejeição sem que os participantes precisassem alterar suas próprias opiniões sobre os temas discutidos.

Segundo os autores, o resultado sugere que o acesso a informações mais precisas sobre o que os diferentes grupos realmente pensam pode contribuir para diminuir a hostilidade política e favorecer um ambiente de diálogo mais construtivo.

O estudo também analisou outros fatores que poderiam influenciar a polarização, incluindo eventos de grande alcance nacional, como a Copa do Mundo de 2022. Nesse caso, os pesquisadores não encontraram evidências de que vitórias ou derrotas da seleção brasileira tenham alterado significativamente o nível de rejeição entre os grupos políticos.

Embora os autores reconheçam limitações na pesquisa, como a ausência de dados sobre os efeitos de longo prazo da correção dessas percepções, eles destacam que a redução da polarização afetiva pode depender, em grande medida, da circulação de informações verificadas e da disposição das pessoas em compreender com mais precisão as posições defendidas por quem pensa diferente.

Com informações de BBC Brasil

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