Fotos: André Cavalcante

A avenida Epaminondas já tem sua teatralidade viva e cotidiana quando o espetáculo chega. Pessoas trabalham, passam, vendem, esperam o ônibus, conversam, circulam. Diferentemente de uma sala de teatro, onde o público sabe que está diante de uma apresentação e o espaço é organizado para recebê-la, o teatro de rua encontra uma cidade que não para para assistir.

Foi nesse território vivo e imprevisível que o Processo Natimorto apresentou Ajuricaba-Me no dia 31 de agosto, em um percurso pelas ruas do Centro de Manaus. Partindo da parada de ônibus em frente ao Colégio Militar e seguindo até a Praça da Matriz, a montagem colocou a história de Ajuricaba, liderança dos Manaú que enfrentou a colonização portuguesa no século XVIII, em contato direto com o cotidiano da cidade.

A experiência fez com que acontecimentos não previstos também atravessassem a encenação. Logo no início da apresentação, na região do Colégio Militar, a equipe foi orientada a interromper a ação e retirar faixas que haviam sido colocadas no local. Pouco antes, os artistas haviam reproduzido um áudio com falas de lideranças indígenas e amazônicas, entre elas Chico Mendes e Davi Kopenawa, sobre a destruição da Amazônia.

A interrupção acabou criando uma situação que dialogava diretamente com a própria dramaturgia do espetáculo. Enquanto a obra contava a história de Ajuricaba e sua resistência diante da colonização, a apresentação se deparava, no presente, com uma intervenção externa. Pessoas que acompanhavam a ação chegaram a se manifestar diante da interrupção.

Como parte da proposta itinerante, o grupo desmontou a estrutura e continuou o percurso.

No caminho entre uma estação e outra, os artistas seguiram pelas ruas carregando faixas com frases como “Nada está separado”, “Sorrir. Brincar. Dançar”, “Você já viu o que está à sua volta?” e “Somos parte do mesmo corpo”.

Chico Kaboco também distribuiu as chamadas Cartas de Ajuricaba ao povo manauara, pequenos textos que apresentam reflexões relacionadas ao bem comum, à liberdade e à valorização das diferentes formas de vida.

Na segunda estação, em frente à parada de ônibus do Colégio Dom Bosco, vendedores ambulantes e passageiros ajudaram a reorganizar as faixas no espaço. Elizete Tikuna e André Cavalcante buscavam a atenção das pessoas que aguardavam o transporte, provocando a interação com a apresentação.

Foi nesse momento que surgiu um dos encontros mais simbólicos da experiência. Uma mulher chamada Dona Etelvina pediu a palavra para falar sobre seu orgulho de ser manauara e amazonense. Ela contou que conhecia Ajuricaba e que havia estudado no Instituto de Educação do Amazonas.

A participação espontânea atravessou a encenação e se tornou parte daquele momento.

Para o idealizador do espetáculo, Dimas Mendonça, essa é uma das características fundamentais de criar na rua.

“As pessoas não estão esperando por aquilo. Às vezes, nem sabem que querem ver, ouvir ou participar. É tudo uma surpresa. A rua já está acontecendo quando a arte chega.”

Segundo Dimas, durante o processo de construção do espetáculo, o grupo percebeu que a experiência cotidiana das ruas de Manaus é frequentemente marcada por situações associadas ao medo e à violência. A criação buscou interferir nessa paisagem por meio de outros estímulos, propondo a alegria, o encontro e a percepção do que existe ao redor como possibilidades de experiência.

Para Chico Kaboco, ator do espetáculo, a escolha pelo teatro de rua também está relacionada ao desejo de romper limitações de acesso que podem existir em uma apresentação convencional.

“Quando a proposta de um espetáculo é pensada para o palco, o espetáculo é condicionado a um público. O sistema limita vagas e idades para as pessoas prestigiarem o espetáculo. Ajuricaba-Me virou as costas para o palco porque gostaríamos de encontrar o sentido da vida.”

Para o ator, a obra também procura provocar uma reflexão sobre cidadania e sobre a relação do indivíduo com aquilo que está ao seu redor.

“Ajuricaba fala do amor próprio consigo e com os outros. E os outros não são só pessoas, é algo muito maior. Estou me referindo à terra, árvore, rio, aves, animais e todos os tipos de seres vivos que habitam este planeta. Porque nada está separado: tudo é um corpo, e um precisa do outro.”

Por conta disso, Ajuricaba-Me também é atravessado pela presença e referência a cultura indígena. Para a artesã e multiartista do povo Ticuna, Elizete Tikuna, que faz parte do elenco do espetáculo, a relação com Ajuricaba desperta uma conexão importante entre corpo, território e ancestralidade.

“As pessoas na rua respeitaram a gente como corpo-território e ancestrais.”

Ajuricaba-Me integra uma pesquisa do Processo Natimorto iniciada em 2018 com a trilogia ABAPORUTUS. O percurso começou com Tartufo-Me, inspirado em Molière, passou por Hamlet-Me, a partir de Shakespeare, em 2025, e chega agora a uma figura histórica amazônica.

Inspirado também na peça A Paixão de Ajuricaba, do escritor e dramaturgo amazonense Márcio Souza, o espetáculo não pretende apenas recontar a história de seu protagonista. A proposta é colocar Ajuricaba em contato com a cidade atual e investigar quais memórias permanecem, quais foram apagadas e o que pode surgir quando uma história do território volta a ocupar as ruas.

Depois dessa primeira incursão pelas ruas do Centro de Manaus, fica uma pergunta que atravessa a criação: como fazer da cidade novamente um lugar de encontro, presença, alegria e liberdade?

A resposta, para o Processo Natimorto, passa pela percepção de que talvez seja preciso voltar a olhar para aquilo que está ao redor.

Para o vento, o sol, as águas, as árvores, os bichos e as outras pessoas.

Para lembrar que nada está separado.

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