
O histórico de irregularidades no lixão de Iranduba já resultou em R$ 4,505 milhões em multas aplicadas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). A mais recente, no valor de R$ 2,505 milhões, ocorreu após o incêndio iniciado na quinta-feira (13), que espalhou uma extensa nuvem de fumaça pela Região Metropolitana de Manaus e exigiu mais de 40 horas de combate do Corpo de Bombeiros.
A nova autuação expõe um problema que se arrasta há anos. Desde 2023, a Prefeitura de Iranduba vem sendo cobrada pelo órgão ambiental para promover adequações e recuperar a área. Fiscalizações posteriores encontraram resíduos diretamente sobre o solo, pilhas de lixo com mais de quatro metros de altura, escoamento de chorume e falta de sistemas adequados para drenagem e captação de gases.
Mesmo após notificações e multas anteriores, o local continuou funcionando como vazadouro a céu aberto e voltou a ser atingido pelo fogo.
Na sexta-feira (14), fiscais do Ipaam estiveram na área e constataram a queima de resíduos sólidos, levando à aplicação da multa milionária por poluição atmosférica.
“Durante a fiscalização, a equipe constatou a queima de resíduos a céu aberto, uma prática proibida pela legislação ambiental”, afirmou o diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço.
Prefeitura já havia sido multada duas vezes
A penalidade de R$ 2,505 milhões se soma a outras duas multas relacionadas aos problemas ambientais no lixão.
Em 2023, o município foi notificado pelo Ipaam para adotar medidas de adequação e remediação da área. Diante do não cumprimento integral das determinações, segundo o órgão, a Prefeitura recebeu uma multa de R$ 500 mil em 2024.
Neste ano, uma nova fiscalização identificou irregularidades e o município foi multado em R$ 1,5 milhão por reincidência. Também foi determinada a apresentação de um plano de recuperação.
Com a terceira penalidade, o montante das autuações citadas pelo Ipaam alcança R$ 4,505 milhões.
A Prefeitura tem prazo de 20 dias para pagar a nova multa, apresentar defesa administrativa ou manifestar interesse em conciliação.
Fiscalização encontrou chorume e lixo diretamente no solo
A dimensão do problema já havia sido registrada antes do atual incêndio.
Em março, técnicos do Ipaam constataram que o lixão continuava operando como vazadouro a céu aberto. O relatório apontou resíduos depositados diretamente sobre o solo e sem cobertura adequada.
Também foram identificadas pilhas de lixo superiores a quatro metros de altura, além de acúmulo e escoamento de chorume. Conforme a fiscalização, a área não dispunha de estruturas adequadas para drenagem e captação de gases.
A situação também chamou a atenção de outras instituições. Em fevereiro, a Defensoria Pública do Amazonas coordenou uma vistoria após denúncias relacionadas a fumaça, mau cheiro e descarte desordenado de resíduos.
Justiça Federal também acompanha situação do lixão
Os problemas ambientais chegaram ainda à Justiça Federal.
Em julho, uma decisão judicial determinou que o Município de Iranduba comprovasse o cumprimento das obrigações relacionadas à recuperação da área.
O processo prevê nova vistoria técnica do Ipaam para verificar as condições do local e atualizar as informações sobre as medidas de recuperação e o licenciamento ambiental.
O instituto informou que continuará fiscalizando o cumprimento das obrigações ambientais.
Fumaça piorou qualidade do ar
O incêndio começou na tarde de quinta-feira no lixão localizado no Ramal do Janauari, quilômetro 6 da AM-070. Neste sábado (15), após mais de 40 horas de atuação, o Corpo de Bombeiros ainda trabalhava no combate ao fogo em uma área estimada em aproximadamente 40 mil metros quadrados.
A fumaça alcançou comunidades próximas e também foi percebida por moradores de outras áreas da Região Metropolitana de Manaus.
Na manhã de sábado, dados do sistema Selva, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), indicaram em Iranduba concentração de 153,8 microgramas por metro cúbico (µg/m³), nível classificado pela plataforma como “muito ruim”.
Moradores voltam a cobrar solução
A repetição dos incêndios aumentou a insatisfação de moradores do Ramal do Janauari e de comunidades próximas. Segundo relatos divulgados desde o início das chamas, este seria o segundo episódio do tipo em 2026 e o terceiro desde 2025.
Moradores acusam a administração do prefeito Augusto Ferraz de não ter apresentado uma solução definitiva para o lixão e reclamaram da falta inicial de carros-pipa e maquinário pesado para auxiliar no combate ao fogo.
As críticas são atribuídas aos moradores e lideranças ouvidos sobre o episódio. No material disponibilizado, não consta resposta da Prefeitura de Iranduba às acusações. O município, por sua vez, poderá exercer o direito de defesa administrativa contra a multa aplicada pelo Ipaam.
Com um histórico que reúne três multas, cobranças de órgãos de fiscalização, acompanhamento judicial e novos incêndios, a destinação dos resíduos sólidos volta ao centro das cobranças por uma solução definitiva em Iranduba.







