
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) receberá o senador Jaques Wagner (PT-BA) nesta quarta-feira (24/6), para uma reunião que tende a definir o destino do parlamentar à frente da liderança do governo no Senado.
O encontro ocorre após Wagner ter sido alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que investiga supostas irregularidades envolvendo o Banco Master, deflagrada na última quinta-feira (18/6).
No dia da operação, o senador estava na Bahia e, desde então, não retornou a Brasília. A expectativa é de que ele desembarque na capital federal nesta quarta para a conversa com Lula, que deve manter a agenda do dia sem compromissos públicos.
Nos bastidores, integrantes do governo esperam que Wagner peça para deixar o cargo como forma de conter desgastes políticos e evitar impactos na campanha à reeleição do presidente.
Setores do Palácio do Planalto e do PT têm pressionado pela saída, sob o argumento de que sua permanência pode gerar custo político — especialmente porque o caso Master, até então, não atingia diretamente o governo e recaía sobre nomes da oposição, como o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Apesar disso, Wagner resiste a deixar a função. A aliados mais próximos, tem afirmado que o momento de uma eventual saída deve ser definido em conjunto com Lula. O senador aposta em uma solução negociada, levando em conta a relação política e pessoal de mais de quatro décadas entre ambos, e não pretende entrar em confronto com o presidente.
Uma das preocupações de Wagner é construir uma narrativa que afaste a interpretação de que sua eventual saída representaria admissão de culpa na investigação, na qual não figura como réu. Nesse contexto, ele tenta desvincular sua decisão exclusivamente da operação envolvendo o Banco Master.
Nesse cenário, Wagner cogita se licenciar do cargo, alegando a necessidade de concentrar esforços na própria defesa e na preparação para a disputa eleitoral de 2026, quando tentará a reeleição ao Senado.
Mensagens
O nome do senador passou a constar na investigação após a análise de mensagens extraídas do celular de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro. Os diálogos indicariam possível atuação dele no Congresso em favor do Banco Master.
Entre os pontos sob apuração está a articulação de apoio a propostas como a ampliação do crédito consignado e uma medida conhecida nos bastidores como “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Em contrapartida, a Polícia Federal apura a hipótese de que o parlamentar possa ter recebido vantagens indevidas, como um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões, além de outros benefícios, que somariam ao menos R$ 3 milhões.
Lula tem discurso planejado
Como mostrou o colunista Igor Gadelha, o presidente já definiu a linha de discurso que adotará publicamente sobre o caso.
A tendência é que Lula ressalte a necessidade de Wagner apresentar esclarecimentos, ao mesmo tempo em que reafirma apoio às investigações. De acordo com auxiliares, a orientação é não recuar.
A avaliação no Planalto é que manter o respaldo às apurações é essencial, sobretudo diante da proximidade do período eleitoral, quando o caso tende a ser explorado politicamente.
Cotados para vaga de Wagner
- Diante da possível saída de Wagner, o nome da senadora Teresa Leitão (PT-PE) ganhou força como eventual substituta. Ela ocupa, desde abril, a liderança do PT no Senado. Leitão tem como vantagem o fato de ter sido eleita em 2022 – portanto, está no meio do mandato de oito anos, o que a dispensa de disputar eleições neste ano.
- Como argumento favorável à parlamentar, destaca-se ainda o fato de que a senadora não enfrenta ruídos na relação com o Planalto, nem com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
- O ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE) também é citado como possível nome para o posto. Ele cumpre mandato em meio de legislatura e, em tese, não precisaria direcionar esforços a uma campanha de reeleição.
- No entanto, Camilo deixou o Ministério da Educação em abril justamente para se dedicar à campanha de reeleição do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), que aparece em segundo lugar nas pesquisas contra Ciro Gomes (PSDB). Nesse contexto, a atuação na articulação política no Senado poderia reduzir a dedicação ao palanque cearense de Lula.
- O nome do senador Rogério Carvalho (PT-SE) também aparece nas discussões. Com experiência prévia na função, já que exerceu a liderança interinamente durante licença de Wagner no ano passado, o parlamentar é visto como alternativa. No entanto, ele pretende disputar a reeleição ao Senado e, por isso, tem sinalizado preferência por concentrar esforços na campanha.
Desgaste com Alcolumbre é desafio
A menos de um mês do recesso parlamentar, previsto para 18 de julho, uma eventual troca na liderança do governo no Senado traria desafios imediatos. O sucessor de Wagner terá a tarefa de destravar pautas prioritárias, como a PEC da Segurança Pública, a proposta que extingue a escala 6×1 e o projeto Redata, voltado ao compartilhamento de dados entre órgãos públicos.
A PEC que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas foi aprovada pela Câmara em 27 de maio, mas segue parada no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), ainda não encaminhou o texto à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), sob o argumento de que a proposta pode ser aprimorada.
A oposição, por sua vez, resiste e apresentou PEC alternativa para manter a escala 6×1 e permitir contratos por hora.
Nos bastidores, integrantes do governo apontam que o avanço da proposta depende de um acordo político entre Lula e Alcolumbre. Fontes do Planalto reconhecem que a tramitação está diretamente condicionada a uma reconciliação entre os dois.
O chefe da Casa Alta e Lula estão com a relação rompida após a derrubada da indicação de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), atribuída à articulação de bastidores de Alcolumbre. Já Jaques Wagner foi alvo de críticas internas por não ter antecipado a derrota do governo.
Com isso, outra missão essencial para o eventual sucessor será remendar a relação do Planalto com Davi Alcolumbre. Em novembro de 2025, após o anúncio da indicação de Messias ao Supremo, o presidente do Senado parou de atender o líder do governo, de quem, até aquele momento, tinha uma proximidade no nível pessoal.
O senador amapaense atribui a Jaques a indicação de Messias, que trabalhou no gabinete do senador petista no passado, em detrimento de Rodrigo Pacheco (PSB-MG). Desde então, Alcolumbre tem mantido pouco ou quase nenhum contato com Wagner.
O desgaste atingiu o auge quando o Senado rejeitou a indicação de Lula ao STF, em uma demonstração de força política para Alcolumbre e derrota para o petista. A situação afastou ainda mais o presidente do Senado do líder do governo e, por consequência, de Lula.







