A defensora pública Carol Braz reagiu às declarações da deputada estadual eleita por São Paulo Eduarda Campopiano (PL) sobre feminicídio e violência contra a mulher. Em vídeo publicado em sua página no Instagram, Braz afirmou que a eleição de mulheres, por si só, não significa necessariamente o fortalecimento da defesa dos direitos femininos e resumiu sua posição: “Precisamos de mulheres que defendam os direitos das mulheres.”
A manifestação ocorre após voltarem a repercutir declarações de Campopiano nas quais ela contesta a existência do feminicídio e se posiciona contra pautas feministas. Aos 23 anos, a parlamentar foi eleita no domingo (4) com 1.956.238 votos, tornando-se a deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026. A votação foi a segunda maior da história da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), atrás dos 2.060.786 votos recebidos por Janaína Paschoal em 2018.
No vídeo, Carol Braz concentra a crítica especialmente na ideia de que comportamentos violentos seriam inerentes aos homens. Para a defensora, esse tipo de argumento produz consequências que vão além do debate político.
“Dizer que o homem é violento por natureza passa uma mensagem muito perigosa: a de que nós, mulheres, precisamos aceitar essa violência como algo inevitável, e a de que homens precisam ser violentos para serem ‘mais homens’”, afirmou.
Braz argumentou que homens devem responder individualmente por seus atos e rejeitou qualquer tentativa de apresentar agressões como consequência natural do gênero.
“Homens são responsáveis pelas próprias atitudes, e ser homem não torna ninguém destinado a ameaçar, agredir ou matar nenhuma mulher. E nenhuma mulher tem obrigação de aceitar esse comportamento”, declarou.
“O discurso naturaliza a violência”
Para Carol Braz, a combinação desse argumento com a negação do feminicídio é ainda mais preocupante. “Quando essa ideia aparece junto com a negação do feminicídio, o discurso naturaliza a violência e desconsidera as circunstâncias em que essas mulheres são mortas”, disse.
A defensora também relacionou o debate à sua experiência profissional no atendimento às consequências deixadas por crimes dessa natureza. Segundo ela, um dos projetos em que atua atende órfãos de vítimas de feminicídio.
“Como defensora que atua na defesa de mulheres, tenho um projeto que atua e atende órfãos do feminicídio, e eu sei de perto o quanto essa tragédia cria traumas na vida dessas crianças e de toda essa família”, afirmou.
Ao concluir, Carol Braz direcionou a crítica também para a repercussão eleitoral alcançada por Campopiano.
“Agora, o mais preocupante é saber que esse tipo de discurso rendeu a essa moça o cargo de deputada estadual mais votada do Estado de São Paulo. Algo está errado com os valores da sociedade e precisamos refletir sobre isso.”
Campopiano diz que feminicídio “não existe”
Campopiano ganhou projeção nacional nas redes sociais com posições sobre feminismo, aborto, gênero e segurança pública. Eleita vereadora de Praia Grande em 2024, ela chegará à Alesp dois anos depois, após obter quase 2 milhões de votos.
Em debate sobre uma proposta relacionada à criminalização da misoginia, a deputada eleita afirmou não considerar que o feminicídio exista. Campopiano também se define como antifeminista e, depois da eleição, declarou à Folha de S.Paulo que “a guerra tá só começando”, ao falar sobre o embate político que pretende travar em torno dessas pautas na Assembleia.
A legislação brasileira, no entanto, reconhece especificamente o feminicídio no ordenamento penal. A categoria abrange a morte de mulher por razões da condição do sexo feminino, nas hipóteses previstas em lei.
Campopiano também defende o porte de armas para mulheres como instrumento de proteção e se posiciona contra o aborto, a criminalização da misoginia, políticas de cotas raciais e o reconhecimento da prostituição como profissão.
As declarações sobre feminicídio provocaram outras reações públicas. A jornalista Adriana Araújo, da Band, classificou a fala como “gravíssima” ao comentar o assunto e afirmou que, enquanto determinados discursos ganham espaço nas redes sociais, mulheres enfrentam situações concretas de violência.







