LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova

Com a intenção de conter o impacto da crise do caso Master na gestão petista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve se reunir com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), até o meio desta semana para discutir a saída do senador do posto.

A expectativa no Palácio do Planalto é que Jaques Wagner peça para deixar a função, com objetivo de evitar desgaste político e não contaminar a campanha à reeleição de Lula. O senador tem sido pressionado por integrantes do governo e do PT a abrir mão da liderança.

Integrantes do partido admitem que o caso dá munição à oposição bolsonarista. Ainda assim, a estratégia do PT e da pré-campanha de Lula é dissociar o presidente do episódio envolvendo Wagner, sob o argumento de que o senador vai se candidatar ao Senado, e não ao Palácio do Planalto.

Nomes na disputa pela vaga de Jaques Wagner

Diante da possível saída de Wagner, o nome da senadora Teresa Leitão (PT-PE) ganhou força como eventual substituta.

Com longa trajetória no partido, ela ocupa, desde abril, a liderança do PT no Senado. Leitão tem como vantagem o fato de ter sido eleita em 2022 – portanto, está no meio do mandato de oito anos, o que a dispensa de disputar eleições neste ano.

A escolha, contudo, divide opiniões, e ainda não há consenso no governo. Como argumento favorável à parlamentar, destaca-se ainda o fato de que a senadora não enfrenta ruídos na relação com o Planalto, nem com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

O chefe da Casa Alta e Lula estão com a relação rompida após a derrubada da indicação de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), atribuída à articulação de bastidores de Alcolumbre. Já Jaques Wagner foi alvo de críticas internas por não ter antecipado a derrota do governo. 

O ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE) também é citado como possível nome para o posto. Ele cumpre mandato em meio de legislatura e, em tese, não precisaria direcionar esforços a uma campanha de reeleição.

No entanto, Camilo deixou o Ministério da Educação em abril justamente para se dedicar à campanha de reeleição do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), que aparece em segundo lugar nas pesquisas contra Ciro Gomes (PSDB). Nesse contexto, a atuação na articulação política no Senado poderia reduzir a dedicação ao palanque cearense de Lula.

O nome do senador Rogério Carvalho (PT-SE) também aparece nas discussões. Avaliado positivamente por integrantes do governo e com experiência prévia na função, já que exerceu a liderança interinamente durante licença de Wagner no ano passado, o parlamentar é visto como alternativa. No entanto, ele pretende disputar a reeleição ao Senado e, por isso, tem sinalizado preferência por concentrar esforços na campanha.

Falta menos de um mês para o recesso parlamentar de meio de ano, previsto para 18 de julho. Caso Wagner deixe o cargo, o novo líder terá a missão de acelerar a tramitação de pautas consideradas prioritárias pelo governo ainda sem definição no Senado. Entre elas, estão a PEC da Segurança Pública, a PEC do fim da escala 6×1 e o Redata, projeto voltado à regulamentação e ao compartilhamento de dados entre órgãos públicos.

Decisão de Lula

A reunião entre Lula e Wagner está prevista para quarta-feira (24/6), dia em que o presidente deve despachar em Brasília. Nesta terça-feira (23/6), ele cumpre agendas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A equipe de Wagner, por sua vez, evita confirmar quando o senador retorna da Bahia a Brasília. Quando foi alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master, ele estava em Salvador e permaneceu na cidade nos dias seguintes.

Como mostrou o colunista Igor Gadelha, pessoas próximas ao senador avaliam que a conversa entre ele e Lula será difícil, considerando a relação política e amizade de mais de 40 anos. Aliados afirmam que Wagner não pretende entrar em rota de colisão com o presidente.

O senador resiste a deixar o cargo neste momento por considerar que uma saída poderia ser interpretada como admissão de culpa no inquérito da PF, no qual não é réu. Ainda assim, ele tenta construir uma narrativa alternativa, segundo a qual eventual saída não estaria vinculada exclusivamente à operação no caso Master.

Nesse cenário, Wagner cogita pedir licença da função, alegando a necessidade de se dedicar à própria defesa e à campanha eleitoral de 2026, quando disputará a reeleição ao Senado.

Operação da PF

  • Nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quinta-feira (18/6), mirou o senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado.
  • Os investigadores tentam esclarecer se o senador teria atuado em favor de pautas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional, entre elas uma proposta que ampliava o crédito consignado e outra medida conhecida nos bastidores como Emenda Master. Em contrapartida, teria recebido vantagens indevidas.
  • A PF apura a transferência de um apartamento no valor de R$ 2,5 milhões para o senador, além do uso de aeronaves particulares, ingressos para shows e repasses que somariam R$ 3,5 milhões.
  • As suspeitas surgiram após a análise do conteúdo extraído do celular de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que também foi alvo da ação.
  • Jaques nega envolvimento no caso. Em nota, o senador baiano frisou que “não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados”.

Entrevista causou desconforto

A entrevista concedida por Wagner à BandNews na última quinta-feira (18/6), logo após a operação da PF, causou incômodo no governo e no Palácio do Planalto, segundo relatos.

Na ocasião, o senador revelou ter recebido um telefonema de Lula e afirmou ter sido alvo de solidariedade do presidente. Também declarou que não deixaria a liderança do governo e reafirmou sua pré-candidatura ao Senado em 2026: “Espero ser reeleito”.

De acordo com interlocutores do governo, ao menos quatro pontos da entrevista foram mal recebidos: a revelação do telefonema de Lula, a reafirmação explícita da candidatura, a declaração de que o presidente teria classificado a operação como perseguição política e a afirmação categórica de que não abriria mão da liderança.

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