Divulgação/Washington Costa/MF

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24) que o Grupo Entre, alvo da Operação Crédito Oculto, recebeu recursos de diferentes origens, incluindo valores ligados ao Banco Master e ao crime organizado. Segundo o ministro, os recursos teriam sido concentrados em estruturas financeiras utilizadas, de acordo com as investigações, para ocultar patrimônio e dissimular a origem do dinheiro.

A Operação Crédito Oculto é considerada uma nova etapa da Operação Carbono Oculto e investiga o uso de fundos de investimento, fintechs, bancos, holdings e empresas de fachada em operações relacionadas ao setor de combustíveis. A Receita Federal identificou cerca de R$ 11,6 bilhões em movimentações realizadas entre 2021 e 2025 pela estrutura financeira investigada.

Durante entrevista coletiva, Durigan afirmou que a concentração de recursos de diferentes procedências em uma mesma estrutura dificultava o rastreamento do dinheiro e a identificação dos beneficiários finais. O ministro classificou o mecanismo como uma espécie de “lavanderia” financeira utilizada pelo crime organizado.

A Entre Investimentos também aparece nas investigações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo as informações apresentadas na operação, a empresa realizou repasses ao fundo norte-americano Havengate Development Fund a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Questionado se a mesma estrutura financeira investigada poderia ter sido utilizada nos repasses destinados ao filme, Durigan afirmou que “tudo indica que sim”, mas ressaltou que cabe à investigação determinar a origem específica dos recursos empregados em cada operação. A afirmação, portanto, ainda faz parte das linhas de apuração e não estabelece, por si só, a origem criminosa de todos os valores envolvidos.

Entre os alvos da operação estão Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, dono da Entre Investimentos e delator em investigações relacionadas ao Banco Master, e Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial.

A investigação busca esclarecer como estruturas financeiras teriam sido utilizadas para ocultar os verdadeiros controladores de uma usina sucroalcooleira e, posteriormente, viabilizar a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana. Segundo a Receita Federal, os investigadores identificaram estruturas sobrepostas para dificultar a identificação dos reais beneficiários dos negócios.

Uma das operações analisadas envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios de uma usina. Segundo a Receita, uma empresa ligada ao grupo teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com parte relevante dos recursos originada em fundos controlados pelo próprio grupo investigado.

Os investigadores apontam que esse mecanismo teria criado um fluxo financeiro circular, dando aparência regular às transações e dificultando a identificação de quem efetivamente controlava os recursos e os ativos.

Outra frente da investigação envolve R$ 100 milhões que teriam sido destinados à aquisição da distribuidora de combustíveis. Segundo a Receita Federal, o dinheiro passou por diferentes contas e empresas em poucos minutos antes de chegar a uma usina sucroalcooleira. Posteriormente, os valores foram incorporados a um fundo de investimento e utilizados em uma estrutura que envolveu um certificado de depósito bancário e operações de crédito com holdings ligadas ao grupo investigado.

De acordo com os investigadores, a sequência de operações teria criado uma distância entre a origem dos recursos e a aquisição da distribuidora, dificultando a identificação dos financiadores e beneficiários econômicos do negócio.

A Receita Federal afirma que a estrutura investigada reunia diferentes agentes, com funções complementares. Fintechs teriam permitido a circulação e fragmentação dos recursos, enquanto fundos de investimento, holdings e empresas usadas como veículos teriam contribuído para separar formalmente os ativos de seus supostos controladores.

A apuração também identificou movimentações financeiras que, segundo a Receita, reforçam os indícios de utilização de estruturas de investimento para ocultação patrimonial, dissimulação da origem dos recursos e lavagem de capitais. A operação foi realizada pela Receita Federal e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com participação de outros órgãos estaduais.

Em relação ao Banco Genial, a instituição afirmou que Humberto Tupinambá não faz parte da diretoria nem do quadro societário desde maio de 2026. O banco também informou ter encaminhado ao Gaeco informações sobre operações envolvendo o fundo Radford e as empresas Berna e Branson Holdings.

O Genial declarou ainda que realizou as comunicações previstas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), adotou medidas adicionais de governança após tomar conhecimento dos fatos e deixou a administração do fundo Radford depois da primeira fase da Operação Carbono Oculto. A instituição afirmou que as operações foram conduzidas conforme as atribuições e regras aplicáveis, considerando as informações disponíveis na época, e que permanece à disposição das autoridades.

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