“É o teu dinheiro que tá lá. É o dinheiro do povo”. A declaração foi feita pelo deputado federal e candidato à reeleição Saullo Vianna (MDB) durante agenda política em Itacoatiara, ao comentar a Operação Dinastia do Lago, deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira (16) para investigar suspeitas de fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a gestão municipal de Coari.

Sem mencionar nominalmente o prefeito afastado de Coari, Adail Pinheiro (Republicanos), nem o deputado federal Adail Filho (MDB), Saullo fez um dos discursos mais duros até agora sobre a operação e relacionou diretamente as suspeitas investigadas à falta de recursos para serviços públicos.

“Vergonha o estado do Amazonas! Roubando o dinheiro do povo!”, afirmou o parlamentar.

Na sequência, Saullo fez referência explícita aos elementos que identificam a Dinastia do Lago.

“Porque essa operação da Polícia Federal que aconteceu essa semana, que afastou prefeito, que envolveu deputado federal, que mandou 1 milhão em dinheiro para Brasília com três empresários, é o teu dinheiro que tá lá! É o dinheiro do povo de Itacoatiara que tá lá.”

A referência aos “três empresários” remete ao episódio que deu origem à investigação. Segundo a PF, aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie foram apreendidos em maio de 2025, quando eram transportados por três empresários em um voo entre Manaus e Brasília.

Saullo: “A gente precisa dar um basta”

O ponto central da manifestação de Saullo foi a associação que fez entre eventuais desvios de dinheiro público e as dificuldades enfrentadas pela população.

“A gente precisa dar um basta em políticos que só olham pro seu umbigo e que tiram o dinheiro do povo para poder botar no bolso”, declarou.

O deputado prosseguiu citando problemas sociais:

“A gente continua com o nosso povo pobre, humilhado, sem ter saúde, sem ter educação, sem ter como se chegar com o seu salário até o final do mês.”

Embora o discurso tenha sido feito no contexto da campanha eleitoral de Saullo em Itacoatiara, a referência à operação foi inequívoca. O deputado mencionou o afastamento de um prefeito, o envolvimento de um deputado federal e o dinheiro apreendido anteriormente com três empresários.

Operação afastou Adail e fez buscas contra Adail Filho

A Operação Dinastia do Lago foi deflagrada pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), em Manaus e Coari. Foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Entre os atingidos pelas medidas estão justamente Adail Pinheiro e seu filho, o deputado federal Adail Filho. Adail Pinheiro foi afastado cautelarmente do comando da Prefeitura de Coari, enquanto Adail Filho foi alvo de busca e apreensão.

A investigação busca esclarecer uma possível atuação coordenada entre empresários, agentes públicos e terceiros. De acordo com a PF, existem indícios de direcionamento de licitações, desvio de recursos e movimentações financeiras que teriam como finalidade o pagamento de vantagens indevidas e a ocultação da origem e dos destinatários finais dos valores.

Os crimes são investigados em tese, e as medidas de busca e afastamento não representam condenação dos envolvidos.

Quase R$ 1 milhão e 21 veículos apreendidos

As diligências realizadas na quarta-feira produziram um volume expressivo de apreensões.

Em balanço oficial, a Polícia Federal informou ter apreendido aproximadamente R$ 990,5 mil em espécie. Desse total, R$ 637.750 foram encontrados em Coari e R$ 352.750 em Manaus. Na capital também foram apreendidos US$ 10 mil e € 1.255.

Além do dinheiro, foram sequestrados 21 veículos — 11 em Manaus e dez em Coari. A própria PF informou que esses números eram preliminares e poderiam ser atualizados após a consolidação das diligências.

Imagens das buscas também mostraram relógios, braceletes, colares, brincos e anéis apreendidos pelos agentes. Até a divulgação do balanço consultado, porém, não havia identificação oficial de a quem pertenciam individualmente todos esses bens.

Investigação começou com R$ 1,25 milhão

O episódio mencionado por Saullo em seu discurso ocorreu em maio de 2025.

Na ocasião, a apreensão de aproximadamente R$ 1,25 milhão em dinheiro vivo com três empresários que viajavam entre Manaus e Brasília desencadeou a investigação que posteriormente resultaria na Dinastia do Lago.

A CGU informou que participou da análise de pessoas físicas e jurídicas investigadas, incluindo participação em licitações e contratações públicas e a identificação da origem dos recursos empregados nos pagamentos examinados.

Segundo a PF, os fatos apurados podem caracterizar, em tese, crimes de organização criminosa, fraude à licitação, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.

Adail e filho negam relação com irregularidades

As defesas de Adail Pinheiro e Adail Filho já se manifestaram sobre a operação. Eles sustentam que as medidas de busca e apreensão não significam reconhecimento de culpa ou comprovação da prática de crimes e afirmam confiar no esclarecimento dos fatos.

Com Adail afastado por 90 dias, sua irmã e presidente da Câmara Municipal, Jeany Pinheiro (Republicanos), assumiu temporariamente a Prefeitura de Coari.

Saullo pede voto após críticas

Depois de atacar as práticas que atribuiu genericamente a políticos envolvidos com desvios, Saullo encerrou sua manifestação ligando o discurso à própria campanha pela reeleição.

“É isso que eu vim pedir de vocês hoje aqui: a confiança do povo de Itacoatiara para poder continuar trabalhando e te representando em Brasília”, declarou.

A fala chama atenção também pelo contexto político: Saullo Vianna e Adail Filho são deputados federais pelo MDB. Ainda assim, Saullo não mencionou o colega de partido pelo nome ao fazer as críticas relacionadas à operação.

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