O vazamento de informações sigilosas do Smart Sampa, sistema de videomonitoramento da cidade de São Paulo, levantou questionamentos sobre a segurança dos dados armazenados pela plataforma. Em entrevista à CNN Brasil, o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP), classificou o sistema como vulnerável e apontou falhas na gestão e na proteção das informações.

Segundo o especialista, o episódio não compromete necessariamente a atuação operacional das forças policiais, mas revela fragilidades na infraestrutura responsável pelo armazenamento e pelo controle de acesso aos dados.

“O Smart Sampa é vulnerável. Essa governança dos dados do sistema se mostrou frágil e sem os procedimentos adequados. Para qualquer sistema de dados públicos, é preciso ter um nível de segurança e de proteção maior do que o Smart Sampa foi capaz de impor”, afirmou Piquet.

Vazamento expõe fragilidades na governança dos dados

Para o professor, é necessário diferenciar a capacidade operacional do Smart Sampa dos mecanismos utilizados para proteger as informações da plataforma. Ele avalia que o vazamento não elimina a utilidade do sistema na identificação de pessoas procuradas pela Justiça e no monitoramento de áreas urbanas, mas evidencia problemas nos protocolos de segurança.

Piquet também questionou a atribuição de responsabilidade exclusiva a um único usuário, apresentada pela Prefeitura de São Paulo. Na avaliação do especialista, o episódio aponta para possíveis falhas nos procedimentos de autenticação, no controle de acessos e na governança dos dados.

Informações podem ser utilizadas em fraudes digitais

Entre os principais riscos do vazamento está a possibilidade de utilização das informações expostas em golpes digitais, abertura irregular de crédito e fraudes financeiras.

O professor alertou que dados pessoais obtidos de forma indevida podem alimentar redes de crimes cibernéticos. Ele também destacou riscos futuros, como a possibilidade de invasores com maior capacidade técnica tentarem manipular imagens do sistema ou interferir em operações de inteligência.

“Existe um mercado hoje muito dinâmico ligado à fraude, usando dados de pessoas que são obtidos nessas bases diversas, e agora, o Smart Sampa contribuiu para esse acervo de ilicitude, também na área de crimes digitais”, declarou.

Especialista defende reforço nos protocolos de proteção

Para evitar novos incidentes, Piquet defende regras contratuais mais rigorosas para empresas fornecedoras de tecnologia, além de investimentos em segurança digital e governança de dados.

Entre as medidas apontadas estão a adoção de autenticação multifator, o controle mais restrito dos privilégios de acesso e a realização de auditorias frequentes para verificar quem acessa as informações e como elas são utilizadas.

O professor também sugeriu que mecanismos de proteção adotados em instituições financeiras e em bases governamentais, como as relacionadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), sejam considerados na revisão dos procedimentos do Smart Sampa.

Para ele, o caso não significa que tecnologias como inteligência artificial e análise de dados devam deixar de ser utilizadas na segurança pública, mas reforça a necessidade de proteger adequadamente as informações.

“A crise do Smart Sampa não é uma crise dos sistemas de tecnologia aplicada à segurança. É uma crise de gestão de dados, segurança de dados”, afirmou.

Dados de mais de 58 mil câmeras teriam ficado expostos

Uma reportagem publicada pelo UOL na terça-feira (20) informou que dados sigilosos relacionados ao Smart Sampa permaneceram expostos na internet por aproximadamente 11 meses.

Segundo o veículo, o material permitia acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras conectadas à plataforma, incluindo equipamentos instalados em ruas, escolas, creches e hospitais.

O repositório também conteria 181 conjuntos de logins e senhas de usuários autorizados, informações de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções para reproduzir o sistema em computadores ou celulares.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo classificou o episódio como um ato criminoso praticado por um dos mais de 7.500 agentes de segurança. A administração municipal afirmou que não houve uso indevido da plataforma e contestou a classificação do caso como falha de segurança.

Segundo a prefeitura, o repositório disponibilizado ilegalmente foi retirado do ar pela Secretaria Municipal de Segurança Urbana e o material não continha senhas de acesso.

A administração também informou que o Smart Sampa é fiscalizado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) e conta com consultoria especializada em governança e privacidade de dados.

Prefeitura afirma que sistema passa por auditorias

De acordo com a administração municipal, as obrigações contratuais do programa incluem auditorias periódicas, testes de segurança, monitoramento, apresentação de relatórios técnicos e correção de possíveis vulnerabilidades.

A Coordenadoria de Tecnologia, Integração e Segurança (CTIS), vinculada à Secretaria Municipal de Segurança Urbana, é responsável pela supervisão e fiscalização da plataforma.

A prefeitura acrescentou que as câmeras instaladas em equipamentos públicos monitoram áreas de circulação comum, sem abranger consultórios, salas de atendimento ou ambientes assistenciais. A administração ressaltou ainda que a captação de uma imagem não significa, necessariamente, que a pessoa tenha sido cadastrada ou identificada pelo sistema.

ANPD acompanha o caso

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) informou nesta quarta-feira (21) que acompanha o incidente dentro de suas atribuições legais. Segundo a agência, até aquele momento, a Prefeitura de São Paulo não havia entrado em contato para comunicar o caso.

Entre as competências da ANPD estão fiscalizar o cumprimento das normas de proteção de dados, exigir medidas para reduzir riscos e aplicar sanções administrativas quando cabíveis.

O episódio amplia o debate sobre a segurança de sistemas públicos de videomonitoramento e a necessidade de mecanismos rigorosos para impedir acessos indevidos a informações pessoais.

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