Foto: @SantiPenap

O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi preso nesta sexta-feira (6), em Assunção, poucas horas depois de ser destituído do cargo pelo Senado, em um julgamento de impeachment provocado pelo escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank. A ordem de detenção foi expedida pelo Ministério Público paraguaio, que investiga suspeitas de lesão de confiança e outros possíveis crimes relacionados à instituição bancária.

A prisão ocorreu na residência do ex-mandatário, onde ele permanecerá sob custódia das autoridades enquanto avançam as investigações. A medida foi executada logo após o Senado aprovar sua destituição, encerrando antecipadamente o governo de Peña e aprofundando uma das maiores crises políticas e financeiras recentes do Paraguai.

O escândalo ganhou proporções nacionais depois que o Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país, entrou em colapso. A suspensão de suas operações deixou milhões de clientes temporariamente sem acesso a contas, cartões e recursos depositados no banco, provocando protestos e aumentando a pressão sobre o governo.

Segundo informações da Associated Press, a instituição atendia quase 3 milhões de clientes. O governo paraguaio iniciou um processo de ressarcimento dos correntistas, enquanto as autoridades investigam irregularidades na administração do banco e a possível participação de agentes públicos.

Senado destitui Peña e vice-presidente assume o governo

A queda de Santiago Peña foi confirmada após os 44 senadores presentes votarem pela sua destituição, sob a acusação de mau desempenho das funções presidenciais.

Com a decisão, Peña tornou-se o segundo presidente paraguaio destituído por impeachment desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, em 1989. O primeiro foi Fernando Lugo, afastado em 2012.

Após a votação, o então vice-presidente Pedro Alliana prestou juramento perante o Congresso e assumiu a Presidência da República. Ele deverá concluir o mandato presidencial, previsto para terminar em agosto de 2028.

Relações financeiras com Ueno Bank estão sob investigação

Um dos principais pontos da investigação envolve os vínculos patrimoniais e empresariais mantidos por Santiago Peña com o conglomerado ligado ao Ueno Bank.

Na declaração patrimonial apresentada em 2023, o político informou possuir ações da Ueno Holding avaliadas em 6,144 bilhões de guaranis. A participação teria sido vendida em abril de 2025.

Peña também declarou um certificado de depósito de 2,4 bilhões de guaranis no Ueno Bank e um título vinculado à Itti, empresa especializada em tecnologia financeira.

Outro elemento citado no caso é a participação de seu irmão na U Holding SARL, sociedade apontada como ligada à estrutura empresarial do banco. A existência desses vínculos, entretanto, não comprova, por si só, a prática de crimes.

As investigações buscam esclarecer se houve favorecimento indevido, utilização irregular de recursos públicos ou outras condutas criminosas relacionadas à instituição financeira.

Ministério Público também determina prisão de ex-presidente do Banco Central

A ordem de detenção contra Peña foi assinada por quatro integrantes do Ministério Público: Elena Fiore, Christian Benítez, Silvia González Véster e Ruth Karina Benítez.

O procedimento integra a investigação identificada como causa nº 92/2026, que apura suspeitas de lesão de confiança e outros delitos.

Além do ex-presidente, a Fiscalía determinou a detenção de Carlos Carvallo Spalding, que havia deixado a presidência do Banco Central do Paraguai. A participação de autoridades responsáveis pela fiscalização financeira também está sob investigação.

Colapso bancário provoca protestos e amplia crise política

O fechamento do Ueno Bank provocou forte reação entre os paraguaios, especialmente correntistas que tiveram dificuldades para movimentar dinheiro e acessar suas economias.

As autoridades financeiras iniciaram a devolução dos depósitos garantidos e informaram que o mecanismo de proteção deverá cobrir integralmente os saldos de aproximadamente 97% dos clientes.

Paralelamente, 27 pessoas ligadas à instituição foram formalmente acusadas no âmbito das investigações sobre o colapso financeiro.

A crise também provocou uma ruptura política dentro do Partido Colorado, legenda de Santiago Peña, e ampliou os questionamentos sobre a relação entre o poder público e o sistema bancário.

Peña nega ter cometido irregularidades. A prisão representa uma medida no curso da investigação criminal, não uma condenação definitiva.

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