Foto: REUTERS/Ramadan Abed

Mais de dois terços da população da Faixa de Gaza podem enfrentar fome aguda até o final de 2026, segunda nova avaliação da Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC), principal sistema internacional de monitoramento da fome. O relatório, divulgado na quarta-feira (23), alerta que a redução do fluxo de ajuda humanitária, causada pela falta de recursos e pelas dificuldades de acesso ao território, ameaça reverter os avanços obtidos após o cessar-fogo firmado entre Israel e o Hamas em outubro de 2025.

De acordo com o IPC, os índices de desnutrição aguda, especialmente entre crianças, apresentaram melhorias significativas após o aumento da distribuição de alimentos e da oferta de serviços de nutrição nos meses seguintes à trégua. No entanto, a organização afirma que a situação voltou a deteriorar-se rapidamente.

O aponta que a maioria das famílias de Gaza continua sem acesso ao relatório adequado à alimentação. Em diversos casos, os moradores passaram a recorrer à mendicância e à coleta de restos de comida para sobreviver.

Entre meados de abril e o fim de junho, cerca de 1,2 milhão de pessoas, o equivalente a 59% da população do território, enfrentaram níveis de fome considerados de crise ou perdas. Desse total, aproximadamente 212 mil pessoas estavam em situação de emergência alimentar.

A projeção para os próximos meses é ainda mais preocupante. O IPC estima que o número de pessoas com fome aguda pode ultrapassar 1,4 milhão até dezembro, alcançando cerca de 67% da população de Gaza.

Após quase dois anos de guerra e o deslocamento de grande parte dos habitantes do território, a dependência da ajuda humanitária tornou-se praticamente total. As organizações internacionais afirmam que a maioria da população depende da distribuição de alimentos, água e medicamentos para atender às necessidades básicas de sobrevivência.

O monitor global da fome lembra que, em dezembro de 2025, havia retirado a classificação de fome de algumas áreas de Gaza, revertendo uma avaliação feita em agosto daquele ano. Agora, porém, o órgão afirma que os avanços obtidos desde então correm risco de desaparecimento diante da redução da assistência internacional.

Um dos exemplos citados é o programa de alimentação suplementar destinado a mulheres grávidas e lactantes. Segundo o relatório, o número de beneficiários atendidos caiu pela metade entre janeiro e maio deste ano, passando para cerca de 6 mil pessoas.

A expectativa das agências humanitárias é de que novos cortes ocorram nos próximos meses, tanto pela escassez de financiamento quanto pela incerteza sobre o acesso seguro das organizações às áreas afetadas.

O governo de Israel voltou a contestar as conclusões do IPC. Em nota, o Cogat, órgão militar responsável por coordenar a entrada de ajuda humanitária em Gaza, classificou o relatório como tendencioso.

Segundo as autoridades israelenses, grandes quantidades de alimentos, água e suprimentos médicos foram autorizadas a entrar no território desde o cessar-fogo. O órgão também acusou o Hamas de desviar e saquear parte da ajuda humanitária destinada à população civil.

Israel rejeitou as acusações de que teria adotado uma política deliberada de fome contra Gaza, embora tenha reconhecido anteriormente a existência de escassez de alimentos no enclave durante o conflito.

Além da crise alimentar, agências da ONU e organizações humanitárias alertam para um colapso sem precedentes nos sistemas de abastecimento de água e saneamento básico, o que aumenta o risco de surtos de doenças infecciosas e agrava a situação nutricional da população.

A guerra começou após o ataque realizado por combatentes liderados pelo Hamas no sul de Israel, em outubro de 2023, que deixou cerca de 1.200 mortos e foi descoberto no sequestro de 251 pessoas, segundo dados israelenses.

Desde então, uma ataque militar israelense na Faixa de Gaza causou mais de 73 mil mortes palestinas, a maioria de civis, de acordo com as autoridades de saúde do território. O conflito também destruiu grande parte da infraestrutura local, incluindo hospitais, escolas, redes de água e instalações de produção de alimentos.

O IPC afirma que a evolução da crise dependerá da ampliação imediata da assistência humanitária, da garantia de acesso seguro às organizações internacionais e da manutenção das condições de trânsito. Sem essas medidas, o órgão alerta que Gaza pode voltar a enfrentar níveis extremos de insegurança alimentar nos próximos meses.

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