
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17) que o Pix se consolidou como um dos principais meios de pagamento do país e passou a ser considerado um “patrimônio da sociedade brasileira”. A declaração foi feita durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo, em meio às críticas do governo dos Estados Unidos ao sistema brasileiro e às discussões sobre uma possível ampliação da integração do Pix com redes de pagamentos internacionais.
Segundo Galípolo, a defesa do Pix deixou de ser uma questão restrita ao Banco Central, uma vez que o sistema ganhou ampla adesão entre os brasileiros. O presidente da instituição também destacou que o modelo passou a despertar interesse de outros países, que estudam experiências semelhantes para modernizar seus próprios sistemas de pagamentos.
A declaração ocorre após o governo do presidente Donald Trump aumentar a pressão comercial sobre o Brasil. Em julho, os Estados Unidos concluíram uma investigação comercial aberta um ano antes contra o país e incluíram questões relacionadas ao comércio digital e aos serviços de pagamentos eletrônicos entre as práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos.
A investigação foi conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos e serviu de fundamento para a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros importados pelo mercado americano.
Entre os pontos questionados por Washington está a atuação do Banco Central na regulação e também na operação da infraestrutura do Pix. O sistema ganhou espaço rapidamente no mercado brasileiro e passou a concorrer com meios de pagamento tradicionais, incluindo as redes de cartões.
Durante o evento, Galípolo não comentou diretamente cada uma das críticas apresentadas pelos Estados Unidos, mas defendeu a relevância do sistema e afirmou que o interesse internacional pelo Pix demonstra o sucesso da iniciativa brasileira.
Lançado em novembro de 2020, o Pix registrou quase 80 bilhões de transações em 2025, segundo dados apresentados durante a conferência. O volume representou crescimento de 25,7% em relação ao ano anterior e movimentou mais de R$ 35 trilhões.
A participação dos pagamentos realizados por consumidores para empresas também aumentou de maneira expressiva. No primeiro ano de funcionamento do Pix, esse tipo de operação representava cerca de 6% das transações. Em 2025, chegou a 43%.
Além da utilização dentro do Brasil, o Banco Central passou a estudar formas de conectar o Pix a sistemas de pagamentos instantâneos de outros países. A estratégia pode envolver acordos bilaterais ou a participação brasileira em plataformas multilaterais capazes de integrar diferentes redes nacionais.
A intenção é permitir que pagamentos e transferências internacionais sejam realizados de forma mais rápida e com redução de custos, além de aumentar a transparência sobre tarifas e operações de câmbio.
Atualmente, embora alguns estabelecimentos no exterior já aceitem pagamentos por Pix, não existe uma conexão direta entre a infraestrutura brasileira e os sistemas de pagamentos instantâneos de outros países. As operações disponíveis dependem de acordos entre empresas brasileiras e instituições estrangeiras.
Nesse modelo, quando um brasileiro utiliza o Pix para realizar uma compra fora do país, o valor em reais pode ser transferido inicialmente para uma instituição financeira brasileira. A transferência dos recursos ao comerciante estrangeiro ocorre posteriormente por meio de mecanismos tradicionais de câmbio e pagamentos internacionais.
Essa operação pode envolver custos como IOF, tarifas bancárias e spread cambial, que corresponde à diferença entre a cotação de referência de uma moeda e a taxa efetivamente aplicada ao cliente.
Uma eventual conexão direta entre os sistemas nacionais poderia reduzir a necessidade desses intermediários. Nesse cenário, as redes de pagamentos de diferentes países poderiam se comunicar diretamente e permitir que uma compra ou transferência fosse liquidada na moeda local em poucos segundos.
Galípolo afirmou que o Banco Central tem recebido consultas de instituições financeiras e de outros bancos centrais interessados em estabelecer conexões semelhantes.
O presidente do BC também comparou esse movimento ao processo de criação do próprio Pix. Segundo ele, inicialmente a instituição avaliava que uma infraestrutura de pagamentos instantâneos poderia ser desenvolvida pelo setor privado. No entanto, o Banco Central concluiu que os incentivos existentes talvez não fossem suficientes para que empresas privadas assumissem sozinhas os investimentos necessários para criar uma estrutura nacional dessa dimensão.
A expansão internacional, porém, também traz novos desafios para os reguladores. Galípolo destacou que a integração entre sistemas de pagamentos precisa avançar sem comprometer mecanismos de fiscalização, segurança e controle do sistema financeiro.
Na avaliação apresentada pelo presidente do BC, empresas que atuam com pagamentos internacionais podem competir oferecendo tecnologia mais eficiente, custos menores ou serviços melhores. A preocupação surge quando uma instituição conquista mercado por estar submetida a regras menos rigorosas de identificação de clientes, prevenção a ilícitos ou supervisão financeira.
Esse equilíbrio entre inovação e segurança deve fazer parte das discussões entre bancos centrais à medida que aumentarem as conexões entre diferentes sistemas nacionais de pagamentos.
Galípolo também citou o avanço da inteligência artificial como uma das próximas fronteiras de transformação do sistema financeiro. Segundo ele, novas tecnologias poderão ser utilizadas para reforçar a cibersegurança, aprimorar a fiscalização e ampliar a capacidade de supervisão das instituições.
A inteligência artificial também poderá ser empregada diretamente pelos consumidores. Entre as possibilidades mencionadas está o uso de ferramentas capazes de auxiliar na comparação entre investimentos, empréstimos e outras modalidades de produtos financeiros, considerando o perfil e as necessidades de cada cliente.
Para o presidente do Banco Central, agentes de inteligência artificial deverão ganhar espaço tanto entre consumidores e investidores quanto dentro de bancos e instituições de crédito. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária deverá ampliar o uso dessas tecnologias para fortalecer mecanismos de defesa contra ataques digitais e aprimorar a fiscalização do sistema financeiro.







