
O momento mais marcante da coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira (13), sobre a batalha judicial pela permanência do Bar do Armando no Largo de São Sebastião, aconteceu após uma pergunta do repórter Pedro Lamartine, do Portal Fato Amazônico. Ao ser questionada sobre o sentimento da família diante da possibilidade de deixar o imóvel onde o estabelecimento funciona há mais de seis décadas, Ana Cláudia, filha do fundador Armando e administradora do bar, não conseguiu esconder a emoção.
“Saber que eu corro o risco de sair daqui me dói na alma”, afirmou, antes de recordar que praticamente cresceu dentro do tradicional bar, considerado um dos maiores símbolos da cultura boêmia e da história do Centro Histórico de Manaus.
Em um depoimento carregado de emoção, Ana Cláudia contou que nasceu e passou a infância no imóvel da Rua Dez de Julho, onde o Bar do Armando também servia de residência para a família.
Segundo ela, o espaço hoje ocupado pelo estabelecimento era dividido entre o salão comercial e a casa onde viviam seus pais e irmãos. Ao apontar para uma antiga marca no teto, lembrou que ali existia uma parede de madeira que separava o bar dos quartos da família.
“O meu quarto era aqui. Eu vivi aqui até os meus 13 anos. Quando olho para este lugar, não vejo apenas um comércio. Vejo minha infância, minha família e toda a história que construímos”, relatou.
Ana Cláudia também rebateu críticas feitas nas redes sociais de que o Bar do Armando seria um espaço antigo e ultrapassado.
“Para mim, o bar não é velho. O bar é antigo. Velho é quem não entende que o tempo passou, mas que esse patrimônio permaneceu preservado.”
Durante a coletiva, a administradora aproveitou para desmentir informações que, segundo ela, vêm sendo divulgadas de forma equivocada sobre a disputa judicial.
Ela negou categoricamente que a família tenha ingressado com ação de usucapião para tentar assumir a propriedade do imóvel pertencente à Diocese do Alto Solimões.
“Eu desafio qualquer pessoa a provar que alguém da minha família entrou com ação de usucapião. Isso nunca aconteceu.”
Segundo Ana Cláudia, além de juridicamente inviável por existir contrato de locação vigente durante décadas, a família jamais cogitou essa possibilidade por uma questão de princípios.
“Nem tudo que é legal é moral. Mesmo que fosse possível, eu jamais faria isso.”
Outro ponto abordado foi a relação da família com a Igreja Católica. Ana Cláudia negou que padres tenham sido impedidos de frequentar o estabelecimento e classificou como falsa a informação divulgada recentemente em veículos de comunicação.
Ela lembrou, inclusive, que o Fusca pertencente ao fundador do bar foi doado pela família à Igreja de São Sebastião para arrecadar recursos destinados à reforma da paróquia.
Apesar do respeito à instituição religiosa, a administradora questionou a justificativa apresentada pela Diocese para solicitar a retomada do imóvel alegando necessidade de uso próprio.
Segundo ela, diversos imóveis pertencentes à Igreja foram alugados para hotéis, empresas e instituições, enquanto o Bar do Armando permanece sendo alvo da ação de despejo.
“Imóvel para eles é o que não falta”, afirmou ao citar prédios pertencentes à Diocese espalhados pelo Centro de Manaus.
Ana Cláudia também revelou que, após a morte de Armando, precisou assinar um segundo contrato de locação contendo cláusulas que considerou abusivas para evitar que o bar fosse fechado imediatamente.
Ela explicou que, encerradas todas as possibilidades jurídicas, acredita que a única alternativa para preservar o Bar do Armando no Largo de São Sebastião passa por uma decisão política.
A proposta defendida pela família é que o imóvel seja desapropriado pelo poder público por seu interesse histórico e cultural, permitindo que o estabelecimento continue funcionando mediante pagamento de aluguel ao Estado ou ao Município.
“Nós não queremos nada de graça. Queremos continuar pagando aluguel, mas preservar este patrimônio exatamente onde ele nasceu.”
Ao encerrar sua fala, Ana Cláudia fez um apelo à sociedade amazonense, à imprensa e às autoridades para impedir que um dos maiores símbolos culturais da capital deixe o endereço que ocupa há aproximadamente 63 anos.
Para ela, a permanência do Bar do Armando representa muito mais que a continuidade de um estabelecimento comercial: trata-se da preservação da memória, da identidade e da história de Manaus.







