
Diante do agravamento das queimadas que transformaram o céu de Manaus em uma cortina de fumaça e colocaram em risco a saúde de milhares de amazonenses, o governador Roberto Cidade (União Brasil) anunciou neste sábado (17) uma nova ofensiva contra os incêndios florestais e prometeu rigor na responsabilização de quem estiver provocando queimadas criminosas. A declaração ocorreu após a capital registrar índices extremos de poluição atmosférica, enquanto equipes de segurança e fiscalização intensificam operações para identificar possíveis responsáveis pelo fogo.
“Não vamos recuar. Quem provocar incêndios criminosos precisa responder com todo o rigor da lei. Não descansaremos enquanto nossa população estiver ameaçada. Proteger vidas e defender o Amazonas são nossas prioridades absolutas”, afirmou o governador.
Como resposta à emergência ambiental, Cidade convocou, em caráter de urgência, o Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais (Copec), responsável por coordenar medidas de combate aos incêndios, fiscalização e proteção à população.
A decisão ocorre após dez dias de intensa fumaça sobre Manaus e outras cidades do interior, situação que tem provocado preocupação com o aumento dos problemas respiratórios e pressionado os serviços públicos de saúde.
Ao justificar a convocação, o governador reconheceu a gravidade da crise e destacou as providências adotadas desde que assumiu o comando do Executivo estadual.
“Há 10 dias, nossa população sofre com a fumaça provocada pelos incêndios florestais, muitos deles criminosos, que ameaçam a saúde e a vida de milhares de famílias. Desde que assumi o governo, estamos trabalhando para enfrentar essa crise. Lançamos o Amazonas Mais Verde, investimos em equipamentos, viaturas e tecnologia, reforçamos o Corpo de Bombeiros e ampliamos as bases permanentes nos municípios do interior”, declarou.
Manaus registra índice de poluição de 657 pontos e enfrenta situação perigosa
A gravidade da crise ficou evidente na manhã deste sábado, quando Manaus registrou 657 pontos no índice de qualidade do ar AQI+, segundo a plataforma internacional IQAir.
Por volta das 8h40, a concentração de partículas finas PM2,5 atingiu 404,3 microgramas por metro cúbico, equivalente a 80,9 vezes a diretriz anual de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 5 microgramas por metro cúbico.
O indicador colocou a capital amazonense na classificação de qualidade do ar considerada perigosa, evidenciando os riscos da exposição prolongada à fumaça.
Mais cedo, por volta das 6h, o índice já havia alcançado 441 pontos, com concentração de PM2,5 de 295,9 microgramas por metro cúbico.
A Defesa Civil do Amazonas emitiu alerta de risco severo, associando a deterioração da qualidade do ar aos incêndios florestais.
A situação exige cuidados redobrados, principalmente com crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.
Governo do Amazonas pede quatro aeronaves de grande porte para combater incêndios
Uma das principais medidas anunciadas neste sábado foi a solicitação de reforço aéreo ao Governo Federal.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Muniz, encaminhou o Ofício nº 3581/2026 solicitando quatro aeronaves de grande capacidade para operações de combate aos incêndios entre 25 de outubro e 25 de dezembro.
O pedido também inclui aeronaves para transporte de tropas e reconhecimento das regiões atingidas.
Segundo o comandante, as aeronaves atualmente utilizadas enfrentam limitações operacionais diante das grandes distâncias e das dificuldades de acesso a determinadas áreas do estado.
“Estamos enfrentando uma situação que exige o emprego de todos os recursos disponíveis. As grandes distâncias, a dificuldade de acesso a determinadas áreas e as limitações operacionais das aeronaves utilizadas atualmente tornam necessário o reforço com equipamentos de maior capacidade, para ampliar o volume de água lançado e dar mais agilidade às operações”, explicou Muniz.
O reforço é considerado estratégico para municípios do interior, onde o acesso terrestre é limitado e as equipes dependem de apoio aéreo para alcançar áreas atingidas.
Mais de 22,5 mil focos de incêndio combatidos no Amazonas
O balanço divulgado pelo Corpo de Bombeiros revela a dimensão da mobilização estadual.
Balanço do CBMAM — 1º de junho a 16 de outubro de 2026
22.557
Focos combatidos
3.710
Ocorrências registradas
17.959
Focos no interior
4.598
Focos em Manaus
Cerca de mil bombeiros militares e brigadistas estão mobilizados nas ações de enfrentamento.
As operações envolvem combate direto às chamas, monitoramento, fiscalização ambiental e ações preventivas nas comunidades.
Polícia intensifica vigilância aérea para identificar responsáveis por incêndios criminosos
A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) ampliou, na sexta-feira (16), o monitoramento de áreas atingidas pelos incêndios utilizando drones e aeronaves do Departamento Integrado de Operações Aéreas (DIOA).
As imagens captadas durante os sobrevoos auxiliam na identificação de movimentações suspeitas, no reconhecimento das áreas atingidas e no direcionamento das equipes policiais.
A medida integra a estratégia de combate aos crimes ambientais e busca reunir elementos que permitam identificar os responsáveis pela provocação intencional de incêndios.
A Delegacia Especializada em Meio Ambiente e Urbanismo (Dema) também intensificou as investigações.
Entre janeiro e outubro de 2026, foram registrados 567 procedimentos e verificações de procedência de informações relacionados a possíveis crimes ambientais, incluindo 90 registros de incêndios em florestas ou outras formas de vegetação, 66 de incêndios em geral, 151 de desmatamento e 14 de poluição atmosférica.
A delegacia deverá solicitar informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para auxiliar na identificação dos proprietários de imóveis situados em áreas atingidas e na apuração de eventuais responsabilidades.
A identificação do proprietário, por si só, não comprova autoria ou responsabilidade criminal pelo incêndio.
Operações ambientais somam R$ 235,9 milhões em multas
O Governo do Amazonas também intensificou as ações de fiscalização por meio das operações Tamoiotatá, Amazonas Mais Verde e Alerta Fogo.
A Operação Tamoiotatá, iniciada em fevereiro, atua em 13 municípios e reúne equipes do Corpo de Bombeiros e do Ipaam. Segundo o balanço estadual, as ações resultaram em R$ 235,9 milhões em multas aplicadas, 504 autos de infração, 296 termos de embargo e mais de 34,8 mil hectares embargados, além de duas prisões.
Já a Operação Amazonas Mais Verde, iniciada em maio, contempla 33 municípios e reforçou sua estrutura com 20 viaturas e 453 equipamentos multimissão. A operação também desenvolveu atividades de educação ambiental que alcançaram mais de 43 mil pessoas entre junho e agosto.
O estado ainda contratou 153 brigadistas florestais pelo Programa Floresta em Pé para ampliar a prevenção e o combate aos incêndios.
Fumaça chega a impedir voos de combate aos incêndios
A dimensão da emergência ganhou outro agravante neste sábado. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a fumaça intensa comprometeu a visibilidade nos aeroportos utilizados pelas aeronaves de combate aos incêndios, impedindo temporariamente a realização de voos.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados na mesma reportagem, apontam que o Amazonas registrou 7.815 focos de calor até 12 de outubro, crescimento de 116% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Em outra frente, o Ministério Público de Contas do Amazonas divulgou boletim neste sábado informando que a poluição também atingiu níveis extremamente elevados em Itacoatiara e Autazes. Uma estação do sistema SELVA, da Universidade do Estado do Amazonas, registrou 514,8 µg/m³ de PM2,5 em Manaus às 9h26.
O Governo do Amazonas decretou situação de emergência nas áreas afetadas pelos incêndios florestais em 10 de outubro, por meio do Decreto nº 55.751, com validade de 180 dias.
A medida permite ampliar a mobilização de recursos e fortalecer a resposta dos órgãos estaduais, em articulação com o Governo Federal e as prefeituras.
A crise também provocou reações na administração municipal. O prefeito de Manaus, Renato Junior (Avante), fez um apelo público por ajuda neste sábado, diante da fumaça que encobre a cidade. A Prefeitura suspendeu atividades escolares presenciais e adotou medidas para reduzir a exposição da população à poluição.
Para Roberto Cidade, o enfrentamento da emergência exige a continuidade das operações e a responsabilização dos autores de incêndios criminosos.
A convocação urgente do Copec e o pedido de reforço aéreo ao Governo Federal representam as medidas mais recentes de uma mobilização que, além de combater o fogo, enfrenta o desafio de proteger a saúde dos amazonenses enquanto a fumaça permanece sobre a capital e os municípios do interior.







