
O consumo das famílias brasileiras recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026, interrompendo a alta de 0,8% registrada nos três primeiros meses do ano. Os dados fazem parte do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado nesta terça-feira (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e mostram uma perda de força em um dos principais componentes da atividade econômica. Para o economista Ricardo Julio Rodil, líder de Capital Markets da Cowe Macro, o resultado reflete principalmente o impacto do endividamento e dos juros ainda elevados sobre o orçamento das famílias.
Segundo Rodil, mesmo com sinais positivos no mercado de trabalho, como o baixo desemprego e a elevação da renda real, muitas famílias já comprometem uma parcela significativa dos ganhos com parcelas e juros de dívidas contraídas anteriormente. Nesse cenário, sobra menos dinheiro para novos gastos e para o consumo de bens e serviços.
O economista compara a situação a um orçamento doméstico no limite. Na avaliação dele, uma família que possui R$ 100 disponíveis para gastar e já destina R$ 80 ao pagamento de juros e parcelas tem pouca margem para assumir novas despesas. Mesmo que a renda esteja estável ou crescendo, o comprometimento financeiro reduz a capacidade de consumo.
A desaceleração das famílias ocorreu em um trimestre no qual o PIB brasileiro avançou 0,5%, resultado acima da expectativa de 0,4% do mercado. Apesar da expansão, o desempenho ficou abaixo do crescimento de 1,1% registrado no primeiro trimestre.
Para Rodil, o crescimento trimestral não deve ser analisado isoladamente. Na avaliação do economista, a economia brasileira apresenta um ritmo considerado insuficiente quando observada em um período mais longo. O crescimento acumulado em 12 meses permanece próximo de 2%, patamar que, segundo ele, demonstra uma atividade econômica ainda sem força suficiente para sustentar uma expansão mais acelerada.
O Ministério da Fazenda avaliou que a queda do consumo foi amenizada pela resistência do mercado de trabalho. O desemprego permanece em níveis historicamente baixos e a renda real dos trabalhadores segue em alta. Mesmo assim, o aumento da renda não necessariamente se transforma em maior consumo quando as famílias estão pressionadas pelo volume de dívidas.
Rodil aponta o endividamento como um dos principais obstáculos à recuperação do consumo e cita também as apostas esportivas como um fator que pode agravar a situação financeira de parte da população. Para o economista, o país ainda precisa avançar em mecanismos de controle e educação financeira relacionados a esse tipo de gasto.
Na avaliação dele, uma parcela dos consumidores não possui margem suficiente para absorver despesas recorrentes com apostas sem comprometer o orçamento. Por isso, Rodil defende restrições à publicidade das casas de apostas semelhantes às adotadas em relação ao cigarro.
O economista também chama atenção para a diferença entre os tipos de endividamento. Segundo ele, há uma distinção importante entre uma dívida contraída para comprar um bem durável, como um carro ou uma geladeira, e o uso recorrente do crédito para financiar despesas básicas.
O segundo cenário é considerado mais preocupante porque envolve gastos essenciais que se repetem todos os meses, como compras de supermercado. Quando uma família precisa recorrer continuamente ao crédito para adquirir alimentos e outros produtos básicos, a dívida deixa de estar relacionada a uma aquisição pontual e passa a fazer parte da própria manutenção do orçamento doméstico.
Ao mesmo tempo, existe um limite para o quanto as famílias conseguem reduzir o consumo. Despesas essenciais não podem ser cortadas indefinidamente, o que cria uma espécie de piso mínimo de gastos. Dessa forma, uma queda na renda ou um aumento no comprometimento com dívidas pode colocar os consumidores em uma situação na qual já não há despesas não essenciais suficientes para cortar.
Rodil também relaciona o cenário do consumo à política fiscal e aos gastos públicos. Na visão do economista, o aumento das despesas do governo contribui para manter as taxas de juros pressionadas. Ele ressalta, porém, que o problema não está necessariamente na existência de programas sociais, mas na ausência de medidas capazes de ampliar a produção de bens e serviços na mesma proporção do aumento da demanda.
Segundo o especialista, políticas de transferência de renda podem ser necessárias para auxiliar famílias em situação de vulnerabilidade. Entretanto, quando a oferta de produtos e serviços não acompanha o aumento da demanda, parte desse estímulo pode resultar em maior pressão sobre os preços.
Com a inflação mais elevada, o Banco Central encontra menos espaço para reduzir os juros de forma acelerada. Isso acaba prolongando o custo do crédito para empresas e consumidores e pode dificultar uma recuperação mais forte dos investimentos e do consumo.
Para Rodil, uma das alternativas seria criar políticas públicas capazes de estimular o investimento produtivo do setor privado. A ideia seria aumentar simultaneamente a capacidade de produção e a demanda, permitindo que a economia cresça sem gerar uma pressão inflacionária proporcional.
Entre as possibilidades citadas pelo economista estão incentivos à importação de máquinas e equipamentos modernos. Com maior produtividade, empresas poderiam ampliar a produção utilizando estruturas semelhantes, com ganhos de eficiência em custos, mão de obra, energia e espaço físico.
Medidas como redução de impostos de importação, linhas de financiamento subsidiadas por instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e melhorias na logística também poderiam, segundo Rodil, contribuir para aumentar a produtividade da economia.
Nesse cenário, um eventual aumento do consumo deixaria de ser visto apenas como um problema para a inflação. Com uma oferta maior de produtos e serviços, o crescimento da demanda poderia ser acompanhado pela produção, reduzindo o risco de que o consumo adicional provocasse uma alta significativa dos preços.
O período eleitoral também aparece como um fator de preocupação para o economista. Rodil avalia que a proximidade das eleições tende a aumentar a pressão por gastos públicos e pode dificultar a adoção de medidas de ajuste fiscal mais rígidas no curto prazo.
Apesar da queda da taxa básica de juros, o especialista não espera um alívio imediato para os consumidores. A Selic recuou de 15% para 14% ao ano desde março, mas continua em um nível considerado elevado. Com a inflação próxima do limite superior da meta, Rodil estima que os juros reais permanecem em torno de 5%.
Mesmo diante das dificuldades, o economista demonstra uma perspectiva mais positiva para o médio prazo. A expectativa é de que um eventual avanço no controle da dívida pública permita ao país abrir espaço para uma redução mais consistente dos juros.
Com juros menores e maior previsibilidade econômica, a tendência seria de recuperação gradual dos investimentos produtivos, aumento da capacidade de produção e melhora das condições para que as famílias voltem a ampliar o consumo sem o mesmo nível de pressão financeira observado atualmente.







