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A pobreza na Argentina atingiu 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC). O resultado interrompe parte da trajetória de queda observada em 2025 e representa um novo desafio para o governo do presidente Javier Milei, que tem como principais prioridades o controle da inflação, o equilíbrio das contas públicas e a redução do déficit fiscal.

O índice significa que quase um terço da população argentina estava vivendo abaixo da linha da pobreza no período analisado. O resultado ocorre em um momento de mudanças profundas na economia do país, com redução do ritmo de alta dos preços, mas também com dificuldades relacionadas ao emprego, à renda das famílias e ao consumo.

A Universidade Católica da Argentina (UCA), que acompanha indicadores sociais por meio de levantamentos próprios, estima que a pobreza possa chegar a 35% até o fim deste ano. A projeção não substitui a medição oficial do INDEC. Agustín Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social da UCA, afirmou que a taxa atualmente estaria entre 31% e 32%.

Segundo Salvia, entre 400 mil e 450 mil pessoas teriam entrado na condição de pobreza a cada trimestre ao longo dos últimos quatro trimestres. Caso a estimativa da UCA se confirme, o percentual ainda ficará abaixo dos níveis registrados no primeiro ano do governo Milei, mas indicará uma reversão parcial da melhora observada em 2025.

Inflação caiu, mas renda e emprego seguem pressionados

Desde o início do governo, Milei implementou um programa econômico baseado na redução dos gastos públicos, no controle das contas do Estado e na diminuição dos subsídios. A estratégia contribuiu para a desaceleração da inflação, que era um dos principais problemas enfrentados pela população argentina.

A redução do ritmo de alta dos preços, porém, não foi acompanhada por uma melhora contínua em todos os indicadores sociais. Analistas apontam que salários e empregos precisam avançar de forma consistente para que a estabilização econômica se transforme em uma recuperação mais ampla da renda das famílias.

O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, acima dos 7,6% registrados no mesmo período do ano anterior. Também foi registrada uma queda do emprego privado durante 13 meses consecutivos, enquanto a recuperação da renda familiar permaneceu limitada.

A situação tem sido percebida no cotidiano de famílias e comerciantes. Em bairros da região metropolitana de Buenos Aires, moradores passaram a recorrer a clubes de troca para conseguir alimentos e outros produtos sem utilizar dinheiro.

Em Villa Astolfi, uma professora responsável por organizar um desses clubes relatou que produtos como óleo, açúcar, farinha e macarrão estão entre os itens mais procurados. Os participantes oferecem roupas usadas, utensílios domésticos e outros objetos em troca das mercadorias.

Comerciantes também relatam dificuldades. Um proprietário de uma loja de ferragens em San Fernando afirmou que as vendas diminuíram e que alguns clientes passaram a ter dificuldades para comprar produtos que anteriormente conseguiam adquirir com mais facilidade.

Os relatos ajudam a demonstrar os efeitos sentidos por determinados grupos da população, mas não substituem os indicadores nacionais utilizados para medir a situação econômica e social do país.

Milei enfrenta desgaste entre eleitores de baixa renda

A situação econômica também aparece nas pesquisas de opinião sobre o governo. Levantamentos citados pela Reuters apontam uma redução da aprovação de Milei entre entrevistados de menor renda.

Uma pesquisa da AtlasIntel realizada em setembro indicou que a desaprovação ao presidente nesse grupo se aproximava de 70%, enquanto a aprovação permanecia abaixo de 30%. O levantamento considerou como população de baixa renda os entrevistados com renda mensal de até aproximadamente US$ 650.

Um ano antes, a desaprovação entre esse grupo era de 57%, enquanto 37% aprovavam o governo. No resultado nacional da pesquisa mais recente, 58% dos entrevistados disseram desaprovar Milei e 38,1% afirmaram aprovar sua gestão.

Os números representam a opinião dos entrevistados no período em que a pesquisa foi realizada e não permitem, isoladamente, determinar o comportamento do eleitorado ou antecipar o resultado da eleição presidencial prevista para 2027.

O governo argentino afirma que a política de austeridade é necessária para eliminar déficits fiscais persistentes, estabilizar as contas públicas e criar condições para um crescimento econômico sustentável.

A administração também rejeita a possibilidade de ampliar gastos ou retomar subsídios com o objetivo de responder à pressão política. A equipe de Milei defende a continuidade do programa econômico, mesmo diante das dificuldades enfrentadas por parte da população durante o processo de ajuste.

Entre as medidas adotadas estão cortes de despesas do setor público, redução de subsídios para transporte e serviços públicos e flexibilização das regras de importação. As mudanças provocaram impactos distintos entre os setores da economia.

Economia deve permanecer no centro do debate político

Milei chegou à Presidência no fim de 2023 em meio a uma forte crise econômica e a uma inflação elevada. O atual programa econômico foi apresentado como uma tentativa de reorganizar as contas públicas e recuperar a estabilidade financeira do país.

A evolução da pobreza, do desemprego, dos salários e do custo de vida deverá continuar sendo acompanhada nos próximos meses. Esses indicadores serão importantes para medir os efeitos sociais das medidas adotadas pelo governo.

Com a eleição presidencial prevista para 2027, a situação econômica deverá continuar entre os principais temas do debate político argentino. A capacidade de recuperação da renda, a geração de empregos, o comportamento dos preços e o nível de pobreza estarão entre os fatores observados na avaliação dos resultados do atual programa econômico.

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