
Um relatório parcial do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta que uma combinação de falhas envolvendo pilotos, a Voepass e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para a queda do avião que matou 62 pessoas em agosto de 2024, no interior de São Paulo.
A existência do documento foi revelada inicialmente pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão. O relatório final da investigação ainda não foi concluído e deverá ser apresentado primeiro às famílias das vítimas.
Segundo informações divulgadas sobre a versão preliminar, o documento ainda poderá passar por atualizações antes de sua publicação definitiva. A versão parcial teria sido encaminhada a órgãos de países ligados às fabricantes de componentes utilizados na aeronave.
Relatório aponta falhas na Voepass
De acordo com o documento preliminar, a investigação identificou um contexto organizacional deficiente dentro da companhia aérea, marcado pela tolerância a desvios e pela falta de resposta adequada a alertas relacionados à segurança operacional.
Entre os pontos mencionados estão problemas no sistema de degelo da aeronave, que, segundo o relatório parcial, já teriam sido identificados em voos anteriores.
A apuração indica que falhas de segurança teriam sido ignoradas e que a estrutura organizacional da empresa não respondeu adequadamente a sinais que poderiam representar riscos à operação.
Pilotos teriam se distraído durante procedimentos críticos
O relatório parcial também menciona uma suposta “distração” dos pilotos durante o voo que partiu de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos, em São Paulo, em 9 de agosto de 2024.
Segundo o documento, conversas informais teriam ocorrido durante momentos considerados críticos da operação. A conduta, conforme a análise preliminar, teria elevado os riscos durante o voo.
O comandante da aeronave, Danilo Santos Romano, chegou a mencionar uma falha no sistema de degelo. A informação já havia aparecido no relatório preliminar divulgado pelo Cenipa em setembro de 2024.
Documento também cita atuação da Anac
Em relação à Agência Nacional de Aviação Civil, o relatório parcial aponta que a autarquia não teria conseguido adotar decisões capazes de reduzir os riscos identificados.
Segundo as informações divulgadas, fiscalizações anteriores teriam apontado ausência de padrões técnicos na manutenção das aeronaves da companhia, mas as medidas tomadas não teriam sido suficientes para mitigar os problemas.
A Anac informou que não teve acesso ao documento parcial e afirmou que somente deverá se posicionar após receber oficialmente o relatório final.
A Voepass, por sua vez, informou à Folha de S.Paulo que não comentaria os apontamentos específicos e declarou que continua colaborando com as autoridades de maneira transparente e diligente.
Relatório não define responsabilidades criminais
A investigação conduzida pelo Cenipa possui caráter voltado à prevenção de novos acidentes aeronáuticos e não tem como objetivo estabelecer responsabilidades civis ou criminais.
Paralelamente, a Polícia Federal conduz um inquérito sobre o acidente, que estaria em fase de conclusão. A expectativa é de que pessoas que não estavam a bordo, mas possuíam poder de decisão sobre a permanência da aeronave em operação, possam ser indiciadas.
Após o acidente, a Voepass teve o certificado de operador aéreo cassado pela Anac.
Relembre o acidente
O avião ATR 72-500 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Todos os 58 passageiros e quatro tripulantes morreram após o avião atingir o quintal de uma residência dentro de um condomínio.
Dados de rastreamento do voo indicaram uma perda brusca de altitude. A aeronave estava a aproximadamente 17 mil pés às 13h20 e caiu para cerca de 4 mil pés dois minutos depois, quando o sinal de GPS deixou de ser registrado pela plataforma de monitoramento.
O avião despencou aproximadamente 13 mil pés, cerca de 4 mil metros, em apenas dois minutos.
Durante a investigação preliminar, também foram identificados alertas de “Cruise Speed Low”, indicando baixa velocidade de cruzeiro, e posteriormente de “Degraded Performance”, relacionado à perda de desempenho da aeronave.
O acúmulo de gelo é uma das condições capazes de comprometer a sustentação e o desempenho de uma aeronave. O papel desse fator e de outras circunstâncias na tragédia deverá ser detalhado no relatório final do Cenipa.







