Biodigestor instalado na Escola Estadual Cid Cabral da Silva transforma resíduos de alimentos em biogás para o preparo da merenda e biofertilizante para hortas. (Foto: Samuel Estevão- Fato Amazônico

Restos de alimentos que antes poderiam terminar no lixo passarão a ajudar na preparação da própria merenda dos estudantes da rede pública do Amazonas. A transformação será possível por meio de biodigestores, tecnologia implantada pelo projeto Escolas do Futuro – Guardiões da Amazônia, que pretende beneficiar cerca de 5 mil alunos de dez escolas estaduais e municipais em Manaus, Rio Preto da Eva, Silves e Itapiranga.

O primeiro equipamento foi instalado nesta segunda-feira (10) na Escola Estadual Cid Cabral da Silva, em Manaus. A unidade será pioneira na utilização dos resíduos orgânicos produzidos diariamente para gerar biogás destinado aos fogões da cozinha e biofertilizante para hortas.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre Amazônia B, Eneva e Instituto Ecoleta e leva às escolas uma tecnologia já utilizada em países como Holanda, Alemanha e Suécia, colocando conceitos de bioeconomia, economia circular e transição energética diretamente na rotina dos estudantes.

Escola poderá substituir dois botijões por mês

A Escola Estadual Cid Cabral da Silva atende aproximadamente 250 estudantes em tempo integral e prepara cerca de 750 refeições diariamente.

Com o biodigestor, aproximadamente 250 quilos de restos de alimentos produzidos mensalmente na cozinha passarão a ter uma nova destinação.

A expectativa é que o equipamento produza biogás equivalente a dois botijões de gás de 13 quilos por mês. Além do combustível destinado à preparação das refeições, o processo gera biofertilizante, que poderá ser utilizado no cultivo de hortas.

Cada biodigestor possui capacidade para processar até 10 quilos de resíduos orgânicos diariamente.

Após a instalação, o equipamento necessita de um período de aproximadamente 25 a 30 dias para a formação da microbiota responsável pela decomposição dos resíduos. Depois dessa etapa, começa a produção contínua de gás e fertilizante.

Tecnologia transforma lixo em energia

O sistema HomeBiogas utiliza bactérias anaeróbias em um ambiente fechado e controlado para decompor a matéria orgânica.

Durante o processo, o metano gerado pela decomposição é capturado e aproveitado na produção do biogás que alimentará os fogões das cozinhas escolares. O material líquido resultante do processo é rico em nutrientes e pode ser aproveitado como fertilizante natural.

Com a implantação nas dez escolas, a estimativa é que, durante um ano, mais de 20 toneladas de resíduos orgânicos deixem de ser destinadas aos aterros sanitários.

A projeção ambiental do projeto também aponta para uma redução de até oito toneladas de CO₂ e cerca de 300 quilos de metano por ano.

Alunos aprendem que “lixo pode se tornar algo útil”

Coordenador de Relações Institucionais da Eneva na Região Norte, Márcio Lira destacou que um dos principais objetivos da iniciativa é fazer com que crianças e adolescentes tenham contato direto com conceitos de reciclagem, sustentabilidade e economia circular.

“A gente acredita muito na economia circular, acredita muito na educação em sustentabilidade, onde crianças e adolescentes nas escolas — são 10 escolas estaduais e municipais — vão aprender que o lixo pode se tornar algo útil”, afirmou.

Segundo Lira, os próprios resíduos produzidos pelas escolas poderão ser convertidos em gás para o preparo das refeições e em fertilizantes para pequenas plantações.

A Eneva atua no Amazonas desde 2018 e apoia financeiramente a implantação do projeto.

Projeto aposta em jovens como protagonistas

Além da geração de energia, o Escolas do Futuro pretende aproximar os estudantes amazonenses de tecnologias ligadas à transição energética e à economia sustentável.

Para o diretor da Amazônia B, Bellmond Viga, responsável pela idealização e execução de projetos voltados ao desenvolvimento sustentável, a proposta é preparar os jovens para novas oportunidades profissionais sem deixar de lado a preservação ambiental.

“A gente precisa do jovem sendo protagonista, de estar conectado com estas novas tecnologias, do conhecimento técnico”, destacou.

Viga afirmou ainda que o desenvolvimento econômico da região precisa estar associado à conservação ambiental.

“Quando a gente estimula tudo isso, a gente se torna protagonista da nossa história. E o melhor que a gente tem, que é o nosso patrimônio, é fazer essa economia andar, mas com a floresta de pé, com o meio ambiente alinhado e sendo um ativo, e não um entrave”, afirmou.

Biodigestor também vira ferramenta dentro da sala de aula

A tecnologia não ficará restrita à cozinha. O equipamento será utilizado como instrumento pedagógico para que professores trabalhem temas ambientais de maneira prática e interdisciplinar.

Durante o lançamento, estudantes da Escola Estadual Cid Cabral da Silva participaram de uma Feira de Sustentabilidade, com oficinas, visitas guiadas e atividades sobre compostagem, aproveitamento de alimentos, bioeconomia e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Para a diretora da escola, Flávia Mendonça, o projeto permitirá que os estudantes acompanhem na prática assuntos discutidos em sala de aula.

“Acreditamos que o biodigestor será um importante recurso pedagógico, permitindo que professores desenvolvam atividades interdisciplinares e que os alunos vivenciem experiências concretas relacionadas à educação ambiental, à economia circular, ao consumo consciente e ao reaproveitamento de resíduos”, afirmou.

O Escolas do Futuro – Guardiões da Amazônia está relacionado aos ODS da Organização das Nações Unidas (ONU) voltados à educação de qualidade, energia limpa e acessível, cidades e comunidades sustentáveis, consumo e produção responsáveis e ação climática.

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