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O tradicional desfile russo do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial, anualmente celebrado em Moscou no dia 9 de maio, será realizado em formato reduzido em 2026. Quem for até a Praça Vermelha este ano não verá veículos militares nem cadetes das escolas militares Suvorov e Nakhimov ou de qualquer outra corporação.

O Ministério da Defesa da Rússia justifica a decisão com a “situação operacional atual”. Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo Vladimir Putin, declarou que o equipamento militar não será utilizado nas celebrações por causa da “ameaça terrorista” supostamente partindo da Ucrânia.

Em algumas regiões russas, as celebrações populares do Dia da Vitória foram totalmente canceladas. Não haverá desfiles em Níjni Novgorod, Saratov, Tchuváchia nem na região de Kaluga. As regiões de Voronej, Kursk, Briansk e Belgorod não terão show de fogos de artifício. Tampouco haverá desfile militar em São Petersburgo.

Segundo o site russo de notícias Fontanka, não haverá sequer um tanque T-34 restaurado, que nos últimos anos costumava desfilar à frente da marcha. Em vez de três arquibancadas, haverá apenas uma na Praça do Palácio, com capacidade para cerca de 300 pessoas. De acordo com o portal, foram convidados veteranos da “Operação Militar Especial”, como o Kremlin chama a guerra contra a Ucrânia.

O historiador austríaco Markus Reisner, da Academia Militar de Wiener Neustadt, afirma que o recente ataque ucraniano a Perm mostrou “que a Ucrânia é, na prática, capaz de atingir alvos em regiões profundas do território russo”. “Apesar de uma densa rede de defesa aérea em torno de Moscou, o risco de um ataque saturado aumenta cada vez mais”, enfatiza.

Segundo Reisner, equipamentos militares e a logística necessária para movimentá-los estão sendo usados e consumidos na frente de combate, o que explicaria sua ausência no desfile. “Não por causa da ameaça terrorista de que Peskov fala, mas porque a guerra está consumindo todos os recursos”, explica o especialista. “A Rússia ainda tem equipamento suficiente, mas a logística necessária para transportá-lo de um lado para o outro representa um esforço desproporcional”.

O especialista militar Jan Matveyev acredita que as Forças Armadas russas, com exceção da defesa aérea, dispõem de equipamento militar suficiente. “Tanques, veículos blindados, veículos de combate de infantaria e artilharia estão sendo atualmente empregados na frente de batalha apenas em escala limitada. É perfeitamente possível disponibilizar equipamento para o desfile”, afirma.

“Muito provavelmente”, avalia Matveyev, o Kremlin teme que o uso de equipamentos no desfile possa transformá-los em alvo das Forças Armadas ucranianas. “Outro motivo é que, diante do fracasso da guerra, não se quer chamar muita atenção para o equipamento militar, a fim de não perturbar ainda mais uma opinião pública já insatisfeita”, acrescenta.

Matveyev observa que a defesa aérea da capital russa conseguiu até agora repelir bem os ataques de drones ucranianos. No entanto, não é possível prever o que aconteceria em caso de um ataque massivo. “Sempre existe o risco de um ou mais drones romperem a defesa. Todas as outras medidas, como o desligamento da internet, certamente não irão detê-los”, diz o especialista.

O historiador Alexey Uvarov, da Universidade do Ruhr em Bochum, ressalta que os desfiles militares do Dia da Vitória na Rússia pós-soviética seguem em grande parte a prática dos desfiles comunistas do Dia do Trabalho e do Dia da Revolução de Outubro. Durante a presidência de Boris Yeltsin, nos anos 1990, o desfile de 9 de maio ainda não era um evento regular.

“Nos anos de 1995 e 1996, tentou-se apropriar do tema da ‘Grande Guerra Patriótica'”, recorda o historiador. Segundo ele, o poder estatal queria “conquistar o eleitorado comunista e unir diferentes camadas da sociedade, inclusive aquelas que não apoiavam Yeltsin”.

Também se dava grande valor à presença de convidados estrangeiros nos desfiles. Em 2005 e 2010, estiveram presentes chefes de Estado e de governo europeus, o então presidente dos EUA George W. Bush, o presidente da China e muitos outros. Com o tempo, a importância desses convidados diminuiu. No ano passado, o presidente Lula esteve entre os participantes, ao lado do presidente chinês Xi Jinping, do então governante venezuelano Nicolás Maduro e do líder cubano Miguel Díaz-Canel, entre outros.

Segundo Uvarov, atualmente esses convidados desempenham um papel secundário. A demonstração de “normalidade e controle” estaria agora em primeiro plano. “Ela é tão parte do desfile simbólico quanto o discurso de Ano Novo do presidente”, explica o especialista.

O quão importante é o desfile para o poder estatal ficou evidente em 2020, avalia Uvarov, quando nem a pandemia de covid-19 impediu sua realização. Naquela época, como hoje, o Kremlin quis mostrar que tinha a situação sob controle. “O desfile deve acontecer, simplesmente porque deve acontecer. Ele serve para manter a aparência de normalidade, mesmo que essa normalidade já esteja desmoronando”, enfatiza.

“A memória da Segunda Guerra Mundial e da vitória da União Soviética é um instrumento central da política de memória do Kremlin. Essas narrativas sustentam de forma decisiva a legitimidade do regime. Até mesmo a guerra atual contra a Ucrânia é frequentemente interpretada por meio de paralelos com aquele conflito”, afirma o cientista político Ivan Fomin. Isso explicaria o esforço do Kremlin em “manter formas e ritmos conhecidos de comemoração”.

Com informações de Metrópoles

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