
Às vésperas da possível entrada em vigor das tarifas propostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o tema tornou-se o principal eixo da agenda política e eleitoral do país.
A discussão sobre as novas alíquotas — especialmente sobre quem seria o responsável por sua imposição — passou a ocupar o centro do debate entre os principais pré-candidatos à Presidência da República e seus apoiadores, intensificando a polarização política.
A repercussão da medida também alterou a dinâmica da corrida eleitoral, deslocando para segundo plano assuntos que vinham dominando o noticiário nas últimas semanas, como as investigações envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Em meio ao agravamento da tensão comercial e diplomática entre Brasil e Estados Unidos, os presidenciáveis passaram a concentrar seus discursos nos impactos econômicos das tarifas, na relação bilateral entre os dois países e na disputa política sobre quem deve ser responsabilizado pela medida.
Entenda as tarifas propostas pelos EUA
As tarifas foram sugeridas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), após uma investigação comercial sobre práticas brasileiras.
Segundo o órgão norte-americano, o Brasil adotaria políticas consideradas desleais em diferentes áreas, entre elas:
- comércio digital;
- serviços de pagamento eletrônico;
- tarifas preferenciais;
- combate à corrupção;
- proteção da propriedade intelectual;
- restrições ao mercado de etanol;
- fiscalização insuficiente contra o desmatamento ilegal.
As alíquotas, entretanto, ainda não entraram em vigor. Antes da implementação, a proposta será debatida em audiência pública marcada para segunda-feira (6). Depois dessa etapa, caberá ao presidente Donald Trump decidir sobre a adoção definitiva das medidas.
Caso sejam aprovadas, as novas tarifas deverão passar a valer em 15 de julho de 2026.
Tema se transforma em bandeira eleitoral
Para o cientista político Valdir Pucci, o tarifaço já assumiu papel central na disputa presidencial e passou a funcionar como uma das principais bandeiras da campanha.
Segundo ele, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato da oposição, passaram a utilizar o tema em discursos de forte conteúdo eleitoral.
Na avaliação do especialista, Lula deverá explorar a defesa da soberania nacional e responsabilizar a família Bolsonaro pelas articulações junto ao governo norte-americano.
“O PT vai bater muito na questão da soberania, da defesa dos interesses nacionais durante a campanha eleitoral e vai trazer essa questão do tarifaço à tona. Em todos os momentos o Flávio vai ser cobrado pela posição que ele tomou diante desse tarifaço. O Flávio, por outro lado, acredito que vai tentar trazer a campanha para o assunto da segurança pública”, afirma Valdir Pucci.
Já Flávio Bolsonaro sustenta que as tarifas seriam consequência da política externa adotada pelo governo Lula. Segundo o senador, a gestão petista teria adotado uma postura de “hostilidade” em relação aos Estados Unidos, contribuindo para o agravamento das relações comerciais entre os dois países.
Desde o anúncio da proposta, Lula e Flávio passaram a trocar acusações em discursos públicos e nas redes sociais.
O governo federal também responsabilizou publicamente integrantes da família Bolsonaro pela crise comercial. Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores criticou aqueles que classificou como “traidores da Pátria”, referência feita ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Caso Banco Master continua no radar
Embora o tarifaço tenha dominado o debate político nas últimas semanas, especialistas avaliam que as investigações envolvendo o Banco Master ainda podem influenciar o comportamento do eleitorado.
Para a analista política Raquel Alves, da BMJ Consultores, a proximidade da audiência nos Estados Unidos e do prazo para definição das tarifas explica por que o assunto ganhou protagonismo.
“A proximidade da reunião com os Estados Unidos e da data-limite deixa essa sensação de que o caso virou o tema central da pauta política, mas a agenda da corrupção comove mais os corações e a mente do brasileiro”, afirma.
Segundo a analista, a divulgação de áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro representou o episódio de maior impacto negativo para a pré-campanha do senador.
As conversas vieram acompanhadas de queda nas intenções de voto registradas por pesquisas divulgadas após o episódio.
Especialistas apontam impactos distintos sobre o eleitor
Na avaliação de Valdir Pucci, o eleitor brasileiro costuma atribuir maior peso a temas domésticos, como segurança pública, saúde e educação, do que a questões internacionais.
Já Raquel Alves considera que o efeito eleitoral dependerá diretamente da realidade vivida por cada grupo de eleitores.
“O tema da soberania pode até ser um assunto geral, mas para quem é diretamente atingido pelas tarifas essa passa a ser uma questão mais importante. Se a pessoa trabalha em um setor afetado, perdeu o emprego ou teme perder a renda, isso tende a pesar mais do que um debate sobre corrupção. Por outro lado, quem não percebe efeitos diretos das tarifas pode considerar a agenda da corrupção mais próxima da sua realidade, atribuindo maior peso a esse tema no momento do voto”, conclui.
Com informações de Metrópoles







